SANTOS DE NOVEMBRO
01 de novembro - Todos os Santos
(Apocalipse 22.4)
"Os seus servos O servirão, contemplarão a Sua face, e nas suas frontes está o
nome dele."
O início de Novembro nos abre a estação de Todos os Santos, quando lembramos com
louvor a ação de graças de todos aqueles que já seguiram antes de nós. Nos
últimos tempos, muitas de nossas paróquias incluem ainda o dia de Todas as Almas
ou, como a Liturgia ensina, a Comemoração pelos Fiéis que Partiram. Este é um
tempo muito inspirador do Ano Cristão. Nele recordamos aqueles a quem conhecemos
e amamos mas não mais os vemos.
De um modo geral a sociedade dos nossos dias se satisfaz em negar a morte, e
esquecer os que já partiram. Eles permanecem mas somente como que "notas de
roda-pé" em nossas vidas. Letrinhas pequenas...
Obcecados com a saúde (dieta, tratamentos, vitaminas, beleza física, ginástica
com aparelhos, etc...) tendemos a ignorar a morte. Ela, no entanto, virá, para
cada um de nós, de uma única vez. Como os nossos mortos são lembranças
"difíceis" deste fato, nós os "guardamos" com um certo embaraço.
Em verdade, ouve-se poucos bons sermões sobre a morte, sobre os que estão
morrendo e os que já partiram. Isto não se dá pela pobreza do ensino da Igreja!
Há razões menos nobres que explicam tanta indigência. O céu e o inferno são
raramente ensinados. Quem pode lembrar a última vez que ouviu, da sabedoria da
Igreja, sobre estes fatos, em sua paróquia? Todos os Santos é hoje ainda mais
vital. Este festival pode reequilibrar a balança.
A Igreja primitiva sempre foi atenta sobre seus membros que estão, na expressão
de São Paulo, "em Cristo", Os primeiros cristãos olhavam para o porvir de Deus
com jubilosa esperança, antecipando o dia da ressurreição, quando todos então
serão reunidos. Os fiéis que partiram eram honrados como testemunhos, como um
exército invisível de santos rezando por nós em doce comunhão.
Pelo menos uma vez por ano, experimentamos com seriedade que grande parte da
Igreja de Deus não mais luta nesta terra mas vive, triunfante, no céu. Nós todos
esperamos, com grande anseio e antecipação, pelo grande dia, quando a morte não
mais será!
Dom Luiz O. P. Prado - Bispo
Anglicano, texto originalmente editado pelo
Blog do SETEK
Para rezar: "Misericordiosíssimo
Pai, que foste servido chamar a ti as almas de teus filhos e filhas; concede a
nós que ainda estamos em nossa peregrinação, e que andamos ainda por fé, que
tendo na terra servido constantemente a ti, sejamos reunidos um dia com os teus
santos benditos na glória eterna; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.
" LOC, página 336
02 de novembro - Dia de Finados - Sermão.
Nada mais comum do que a morte e, no entanto, nada mais assombroso.
A morte é um acontecimento que, apesar de sua inevitabilidade, não entra em nossos cálculos. Sua vinda nos surpreende sempre e nos deixa, se somos sinceros, perplexos e emudecidos. Eu creio que quando nós enfrentamos a morte, percebemos que o silêncio é mais eloqüente que as palavras. Não é improvável que as palavras que falamos para consolar aos que ficam ou para justificar esse tremendo acontecimento que é a morte, soem a um vazio insuportável.
Naturalmente que toda pessoa é livre para adotar sua crença ante a morte e ante o que pode suceder depois dela. Para muitos, sabemos, a morte é o fim, o nada, o abismo. Com o desaparecimento da vida acaba tudo o que a vida caracteriza: o amor e o ódio, o trabalho e a iniciativa, a ambição, a esperança, o orgulho, a soberba, a bondade. Chegou-se ao final por completo.
Os cristãos, agora quero dizer sobre um caminho específico, fizemos, pelo contrário, uma opção. A opção pela VIDA ETERNA, uma opção que, não esqueçamos, toma-se desde a fé e que supõe um salto, um imenso salto dado com a nossa mão segurando na mão de Cristo. Creio que não é ocioso repetir constantemente que o cristianismo é uma escolha que o homem, cada homem, deve tomar séria e conscientemente; que o cristianismo não pode ser fruto de uma herança familiar ou de um contexto social, porque, nesse caso, careceria de conteúdo autêntico. Pois bem, nessa escolha responsável e reflexiva que o ser humano faz ao interrogar-se sobre os problemas mais importantes de sua própria vida, está implícita a idéia cristã de que depois da morte, está a vida.
Hoje o Evangelho nos diz, com toda clareza, que JC nos ressuscitará no último dia, isto é, que nos dará uma vida sem limites e sem final, a vida eterna. Através de todas as páginas do Evangelho nas que Jesus se encontrou com a morte encontramos sempre a mesma resposta:
· o vencimento da morte que fica submissa ante a palavra vivificante do Senhor. Levanta-te! Disse a Lázaro já hediondo em sua tumba;
· e a mesma palavra imperativa a repetiu ao filho da viúva de Naím e à filha do centurião.
· Mais tarde, sua própria ressurreição será a resposta mais evidente de seu senhorio sobre a morte e a grande pedra angular na que se apóia nossa esperança cristã e nossa segurança nesse mistério (não esqueçamos, é um mistério) da vida depois da morte.
Por isso, nós cristãos, ao comemorarmos hoje a todos os que estão além de nosso mundo, a todos os que converteram sua fé em segurança, junto à dor por sua ausência, às vezes dilacerante, às vezes já apaziguada pelo passar do tempo, não podemos tirar disto, um fruto angustiante, desesperado e impotente, senão uma chamada à vida, a essa vida que apalpamos e temos essa que conhecemos e com a qual nós estamos fabricando a outra vida, a qual esperamos e cremos. Porque aqui está a grande lição da esperança cristã na vida eterna: a de nos ensinar a viver agora de maneira que poderemos abrir os olhos espirituais com paz quando fecharmos os carnais. E para nos ajudar a viver como quer o Cristo, hoje poderíamos recordar quais vão ser suas palavras quando nos encontrarmos com Ele além de nossos limites terrenos. São palavras categóricas que assinalam inequivocamente um caminho a percorrer: Vinde benditos de meu Pai... Porque tive fome e me destes de comer, estive enfermo e me visitastes, triste e me consolastes... Nossa serena meditação de hoje, indo ou não ao cemitério, tem que estar enfocada na vida para fazê-la possível segundo o querer de Cristo: vivendo-a para os demais, trabalhando para que a vida seja vida para todos os homens; fazendo-a grata, amável e valiosa. O mundo está precisado de homens que creiam firmemente na vida eterna, que lhe dêem um sentido de transcendência, de profundeza e de espiritualidade. Os cristãos devem ser esses homens e essas mulheres. E seremos se crermos realmente no Cristo ressuscitado e em tudo quanto Ele disse e fez em sua vida e em sua morte. Uma maneira de pregar em silêncio nossa fé na vida que não acaba é viver a vida que acaba com sentido de eternidade. Tentando reproduzir com todas as limitações que temos, e que tão bem conhecemos; o estilo de vida de Cristo.
Não devemos fazer, pois, “desta morada terrena, mansão eterna”, como nos diz um poeta: “isso é loucura”.
Nós também partiremos como eles partiram:
"Não gastemos tempo nesta vida mesquinha por tal modo, que se minha vontade está conforme com a divina e consinto em meu morrer com vontade prazerosa, clara e pura, porque quer o homem viver, quando Deus o quer morrer –” “isso é loucura”.
Hoje, façamos ao Senhor esta oração sensata, para que com seu perdão cheguemos à glória, ao triunfo, à felicidade, que desejamos e também para os que amamos e já partiram cuja recordação nos diz e grita: "não chores por mim, senão, fale de mim ao Senhor".
“Tu, que por nossa maldade tomaste forma humana, tu que em tua divindade se juntaste a coisa tão vil como o homem, tu, que tão grandes tormentos sofreste sem resistência em tua carne, não por nossos merecimentos, mas por tua clemência nos perdoe a todos aqui na terra como no céu”.
AMÉM!
* se eucaristia houver
//Que esta Eucaristia de hoje, queridos irmãos, seja agora nosso consolo e nossa alegre esperança e para eles, todos nossos irmãos falecidos, que hoje os sentimos mais próximos ainda, sirva-lhes de purificação, de descanso, de gozo e de vitória. //
Rev. Sérgio Eduardo Pacheco / Paróquia Santo André / Pereira Barreto /SP.
Visite: http://www.anglicana.org
03 de novembro: Richard Hooker (1554 - 1600)

Mestre da prosa e da filosofia das leis em língua inglesa nascido em Heavitree, nos arredores de Exeter, criador da teologia anglicana e um dos maiores defensores de sua igreja diante dos ataques dos puritanos e dos católicos romanos. Estudou no Corpus Christi College, em Oxford e, embora não tenha sido ordenado, foi nomeado master do templo e pregador. Processado por heresia, devido à oposição ao puritanismo, retirou-se então para se dedicar à análise da situação constitucional da igreja na Inglaterra. Em sua obra mais importante, Of the Laws of Ecclesiastical Polity (1594), introduziu um novo elemento de debate: a razão humana. Para ele o homem não seria capaz de interpretar as leis divinas, mas é dotado de livre arbítrio quanto às leis naturais. Faleceu em Bishopsbourne, perto de Canterbury, Kent.
Fonte: wwww.dec.ufcg.edu.br/biografias/
8
DE

John
Duns Scotus foi
11 de novembro – Martinho Lutero

O surgimento dos luteranos está ligado aos inícios da Reforma. A idéia central da Reforma é a convicção de que o ser humano não pode nem tem necessidade de salvar-se por si mesmo. Antes, a salvação é dada em Cristo "unicamente pela graça" e aceita "somente pela fé". Aparentemente simples, esse pensamento, biblicamente fundamentado, originou uma nova compreensão da Igreja, do sacerdócio, dos sacramentos, da espiritualidade, da devoção, da conduta moral (ética), do mundo, incluindo aí a economia, a educação e a política. Há um nome indissoluvelmente ligado a essas idéias: Martinho Lutero!
Lutero nasceu no dia 10 de novembro de 1483 em Eisleben, Alemanha. Preocupado com a salvação, o jovem Martinho Lutero decidiu tornar-se monge. Durante seu estudo, sempre o acompanhava a pergunta: "Como posso conseguir o amor e o perdão de Deus?" Lutero foi descobrindo ao longo dos seus estudos que para ganhar o perdão de Deus ninguém precisava castigar-se ou fazer boas obras, mas somente ter fé em Deus. Com isso, ele não estava inventando uma doutrina, mas retomando pensamentos bíblicos importantes que estavam à margem da vida da igreja naquele momento.
Lutero decidiu tornar públicas essas idéias e elaborou 95 teses, reunindo o mais importante de sua (re)descoberta teológica, e fixou-as na porta da igreja do castelo de Wittenberg, no dia 31 de outubro de 1517. Ele pretendia abrir um debate para uma avaliação interna da Igreja, pois acreditava que a Igreja precisava ser renovada a partir do Evangelho de Jesus Cristo.
Em pouco tempo toda a Alemanha tomou conhecimento do conteúdo dessas teses e elas espalharam-se também pelo resto da Europa. Embora tivesse sido pressionado de muitas formas - excomungado e cassado - para abandonar suas idéias e os seus escritos, Lutero manteve suas convicções. Suas idéias atingiram rapidamente o povo e essa divulgação foi facilitada pelo recém inventado sistema de impressão de textos em série.
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O Movimento da Reforma espalhou-se pela Europa. Em 1530 os líderes protestantes escreveram a "Confissão de Augsburgo", resumindo os elementos doutrinários fundamentais do luteranismo.
Em 1546, no dia 18 de fevereiro, aos 62 anos, Martinho Lutero faleceu. Finalmente, em 1555, o Imperador reconheceu que haviam duas diferentes confissões na Alemanha: a Católica e a Luterana.
Fonte: Página da Igreja Luterana
A CONFISSÃO DE AUGSBURGO
- 25 DE JUNHO DE 1530 -
Em primeiro lugar, ensina-se e mantém-se,
unanimemente, de acordo com o decreto do Concílio de Nicéia,[1]
que há uma só essência[2]
divina, que é chamada Deus e verdadeiramente é Deus. E todavia há três pessoas
nesta única essência divina, igualmente poderosas, igualmente eternas, Deus Pai,
Deus Filho, Deus Espírito Santo, todas três uma única essência divina, eterna,
indivisa, infinita, de incomensurável poder, sabedoria e bondade, um só criador
e conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis. E com a palavra
persona se entende não uma parte, não uma propriedade em outro, mas aquilo
que subsiste por si mesmo, conforme os Pais usaram esse termo nessa questão.[3]
Rejeitam-se, por isso, todas as heresias que são
contrárias a esse artigo, como os maniqueus,[4]
que afirmaram a existência de dois deuses, um bom e um mau; também os
valentinianos,[5]
arianos,[6]
eunomianos,[7]
maometanos[8]
e todas as similares, também os samosatenos,[9]
os antigos e os novos,[10]
que afirmam uma só pessoa e sofismam acerca do Verbo e do Espírito Santo,
dizendo não serem pessoas distintas, porém que Verbo significa palavra ou voz
física, e que o Espírito Santo é movimento criado em suas criaturas.
ARTIGO 2: DO PECADO ORIGINAL[11]
Ensina-se, outrossim, entre nós que depois da queda de
Adão todos os homens naturalmente nascidos[12]
são concebidos e nascidos em pecado, isto é, que desde o ventre materno todos
estão plenos de concupiscência e inclinação más, e por natureza não podem ter
verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé em Deus. Também, que essa inata
pestilência e pecado hereditário verdadeiramente é pecado e condena à eterna ira
de Deus a quantos não renascem pelo batismo e pelo Espírito Santo.
Condenam-se, além disso, os pelagianos[13]
e outros[14]
que não consideram pecado ao hereditário, com o que tornam a natureza justa por
virtudes naturais, para ignomínia da paixão e do mérito de Cristo.
ARTIGO 3: DO FILHO DE DEUS
Ensina-se, além disso, que Deus Filho se fez homem,
nascido da pura[15]
Virgem Maria, e que as duas naturezas, a divina e a humana, inseparavelmente
unidas em uma única pessoa,[16]
são um só Cristo, que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que verdadeiramente
nasceu, padeceu, foi crucificado, morreu e foi sepultado, a fim de ser oblação
não só pelo pecado hereditário, mas ainda por todos os outros pecados, e para
aplacar a ira de Deus. Ensina-se, outrossim, que o mesmo Cristo desceu ao
inferno, no terceiro dia ressurgiu verdadeiramente dos mortos, subiu ao céu e
está sentado à destra de Deus, para dominar eternamente sobre todas as
criaturas e governá-las, a fim de santificar, purificar, fortalecer e consolar,
pelo Espírito Santo, a quantos nele crêem, dar-lhes também vida e toda sorte de
dons e bens, e proteger e defendê-los contra o diabo e o pecado. Também se
ensina que o mesmo Cristo Senhor, conforme o Symbolum Apostolorum,[17]
no fim virá visivelmente, para julgar os vivos e os mortos. etc.
ARTIGO 4: DA JUSTIFICAÇÃO
Ensina-se também que não podemos alcançar remissão do
pecado e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossos, porém que
recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça,
por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu por nós e
que por sua causa os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida
eterna. Pois Deus quer considerar e atribuir essa fé como justiça diante de si,
conforme diz São Paulo em Romanos 3 e 4.[18]
ARTIGO 5: DO OFÍCIO DA PREGAÇÃO[19]
Para conseguirmos essa fé, instituiu Deus o ofício da pregação, dando-nos o
evangelho e os sacramentos, pelos quais, como por meios, dá o Espírito Santo,
que opera a fé, onde e quando lhe apraz, naqueles que ouvem o evangelho, o qual
ensina que temos, pelos méritos de Cristo, não pelos nossos, um Deus gracioso,
se o cremos.
Condenam-se os anabatistas e outros que ensinam
alcançarmos o Espírito Santo mediante preparação, pensamentos e obras próprias,
sem a palavra física do evangelho.[20]
ARTIGO 6: DA NOVA OBEDIÊNCIA
Ensina-se ainda que essa fé deve produzir bons frutos
e boas obras, e que, por amor de Deus, se deve praticar toda sorte de boas obras
por ele ordenadas,[21]
não se devendo, porém, confiar nessas obras, como se por elas se merecesse graça
diante de Deus. Pois é pela fé em Cristo que recebemos perdão dos pecados e
justiça, como diz o próprio Cristo: “Depois de haverdes feito tudo isso, deveis
dizer: Somos servos inúteis.”[22]
Assim também ensinam os Pais. Pois Ambrósio diz: “Assim está estabelecido por
Deus que aquele que crê em Cristo é salvo, e tem a remissão dos pecados não por
obras, mas pela fé somente, sem mérito”.
ARTIGO 7: DA IGREJA
Ensina-se também que sempre haverá e permanecerá uma
única santa igreja[23]
cristã, que é a congregação[24]
de todos os crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente e os santos
sacramentos são administrados de acordo com o evangelho.
Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é
suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente[25]
de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em
conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da igreja cristã
não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes
instituídas pelos homens.[26]
É como diz Paulo em Efésios 4: “Há somente um corpo e um Espírito, como também
fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé,
um só batismo.”[27]
ARTIGO 8: QUE É A IGREJA
Além disso, ainda que a igreja cristã, propriamente
falando, outra coisa não é senão a congregação de todos os crentes e santos,
todavia, já que nesta vida continuam entre os piedosos muitos falsos cristãos e
hipócritas, também, pecadores manifestos, os sacramentos nada obstante são
eficazes, embora os sacerdotes que os administram não sejam piedosos. Conforme o
próprio Cristo indica: “Na cadeira de Moisés estão sentados os fariseus, etc.”[28]
São condenados, por isso, os donatistas[29]
e todos os outros que pensam de maneira diversa.
ARTIGO 9: DO BATISMO
Do batismo se ensina que é necessário e que por ele se oferece graça; que
também se devem batizar crianças, as quais, pelo batismo, são entregues a Deus e
a ele se tornam agradáveis.
Por essa razão se rejeitam os anabatistas, os quais ensinam que o batismo
infantil não é correto.
ARTIGO 10: DA SANTA CEIA
Da ceia do Senhor se ensina que o verdadeiro corpo e
o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia[30]
sob[31]
a espécie do pão e do vinho[32]
e são nela distribuídos e recebidos. Por isso também se rejeita a doutrina
contrária.
ARTIGO 11: DA CONFISSÃO
Da confissão se ensina que se deve conservar a
privata absolutio,[33]
não a deixando cair em desuso na igreja, ainda que na confissão é desnecessário
enumerar todos os maus feitos e pecados, porque tal nem é possível. Salmo 18:
“Quem conhece os delitos?”[34]
ARTIGO 12: DO ARREPENDIMENTO
Do arrependimento se ensina que os que pecaram depois
do batismo, recebem perdão dos pecados a qualquer tempo em que cheguem ao
arrependimento, não lhes devendo a igreja negar a absolvição. Agora,
arrependimento verdadeiro, autêntico, propriamente outra coisa não é que sentir
contrição e pesar ou terror por causa do pecado e todavia crer ao mesmo tempo no
evangelho e na absolvição, isto é, crer que o pecado foi perdoado e que por
Cristo foi obtida a graça, fé essa que volta a consolar e serenar o coração.
Deve seguir-se a melhora de vida e o abandono do pecado; pois esses devem ser os
frutos do arrependimento, como diz João Mt 3: “Produzi, pois, fruto digno do
arrependimento.”[35]
Aqui se rejeitam os que ensinam não poderem voltar a
cair aqueles que já uma vez se tornaram piedosos.[36]
Condenam-se também os novacianos,[37]
que negavam a absolvição aos que haviam pecado depois do batismo.
Rejeitam-se, outrossim, os que não ensinam alcançar-se perdão dos pecados
mediante a fé, e sim por nosso satisfazer.
ARTIGO 13: DO USO DOS
SACRAMENTOS
Com respeito ao uso dos sacramentos se ensina que
foram instituídos não somente para serem sinais por que se possam conhecer
exteriormente os cristãos, mas para serem sinais e testemunhos da vontade divina
para conosco, com o fim de que por eles se desperte e fortaleça a nossa fé. Essa
também a razão por que exigem fé, sendo usados corretamente quando a gente os
recebe em fé e com isso fortalece a fé.[38]
ARTIGO 14: DA ORDEM ECLESIÁSTICA[39]
Da ordem eclesiástica se ensina que sem chamado
regular,[40]
ninguém deve publicamente ensinar ou pregar ou administrar os sacramentos na
igreja.
ARTIGO 15: DAS ORDENAÇÕES
ECLESIÁSTICAS
Das ordenações eclesiásticas estabelecidas por homens
se ensina observar aquelas que possam ser observadas sem pecado e contribuam
para a paz e a boa ordem na igreja, como, por exemplo, certos dias santos,[41]
festas e coisas semelhantes. Esclarecemos, porém, que não se devem onerar as
consciências com essa coisas, como se fossem necessárias para a salvação.
Ensina-se, ademais, que todas as ordenanças e tradições feitas pelo homem com o
propósito de por elas reconciliar-se a Deus e merecer graça são contrárias ao
evangelho e à doutrina da fé em Cristo. Razão por que votos monásticos e outras
tradições concernentes a distinção de alimentos, dias, etc. pelas quais se pensa
merecer graça e satisfazer por pecados, são inúteis e contrários ao evangelho.
ARTIGO 16: DA ORDEM POLÍTICA[42]
E DO GOVERNO CIVIL
Da ordem política e do governo civil se ensina que
toda autoridade no mundo e todos os governos e leis ordenados são ordenações
boas, criadas e instituídas por Deus, e que cristãos podem, sem pecado, ocupar o
cargo de autoridade, de príncipe e de juiz, proferir sentença e julgar segundo
as leis imperiais e outras leis em vigor, punir malfeitores com a espada, fazer
guerras justas, combater, comprar e vender, fazer juramentos requeridos,[43]
possuir propriedade, casar, etc.
Aqui são condenados os anabatistas, os quais ensinam que nenhuma das coisas
supramencionadas é cristã.
Condenam-se, outrossim, aqueles que ensinam ser
perfeição cristã abandonar fisicamente casa e lar, mulher e filhos, e renunciar
as coisas citadas, quando o fato é que apenas verdadeiro temor de Deus e
verdadeira fé constituem a perfeição autêntica. Pois o evangelho não ensina uma
forma de vida e justiça exteriores, temporais, senão uma interior e eterna vida
e justiça do coração,[44]
e não abole o governo civil, a ordem política e o casamento, querendo, ao
contrário, que se guarde tudo isso como genuína ordem divina e que cada qual, de
acordo com sua vocação, mostre, em tais ordenações, amor cristão e obras
verdadeiramente boas. Por isso os cristãos têm o dever de estar sujeitos à
autoridade e de obedecer-lhe aos mandamentos e leis em tudo o que não envolva
pecado. Porque se não é possível obedecer à ordem da autoridade sem pecar, mais
importa obedecer a Deus do que aos homens. Atos 5.[45]
ARTIGO 17: DA VOLTA DE CRISTO
PARA O JUÍZO
Também se ensina que nosso Senhor Jesus Cristo voltará no último dia para
julgar, e que ressuscitará todos os mortos, dará aos crentes e eleitos vida e
alegria eternas, porém condenará os homens ímpios e os demônios ao inferno e
castigo eterno.
Rejeitam, por isso, os anabatistas, os quais ensinam
que os diabos e os homens condenados não sofrerão dor e tormento eternos.[46]
Aqui se rejeitam, outrossim, algumas doutrinas judaicas que também ao
presente se manifestam e segundo as quais antes da ressurreição dos mortos um
grupo constituído integralmente de santos e piedosos terá um reino terrestre e
aniquilará todos os ímpios.
ARTIGO 18: DO LIVRE ARBÍTRIO
Quanto ao livre arbítrio se ensina que o homem tem
até certo ponto livre arbítrio para viver exteriormente de maneira honesta e
escolher entre aquelas coisas que a razão compreende. Todavia, sem a graça, o
auxílio e a operação do Espírito Santo o homem é incapaz de ser agradável a
Deus, temê-lo de coração, ou crer, ou expulsar do coração as más concupiscências
inatas. Isso, ao contrário, é feito pelo Espírito Santo, que é dado pela palavra
de Deus. Pois Paulo diz em 1 Coríntios 2: “O homem natural nada entende do
Espírito de Deus”.[47]
E para que se possa reconhecer que nisso não se ensina novidade, eis aí as
claras palavras de Agostinho a respeito do livre arbítrio, aqui citadas do livro
III do Hypognosticon: “Confessamos que em todos os homens há um livre
arbítrio, pois todos têm entendimento e razão naturais, inatos. Não no sentido
de que sejam capazes de algo no que concerne a Deus, como, por exemplo, amar e
temer a Deus de coração. Somente em obras externas desta vida têm liberdade para
escolher coisas boas ou más. Por obras boas entendo as de que é capaz a
natureza, tais como trabalhar ou não no campo, comer, beber, visitar ou não um
amigo, vestir-se ou despir-se, edificar, tomar esposa, dedicar-se a um ofício
ou fazer alguma outra coisa proveitosa e boa. Tudo isso, entretanto, não é nem
subsiste sem Deus; ao contrário: dele e por ele são todas as coisas. Por outro
lado pode o homem também praticar por escolha própria o mal, como, por exemplo,
ajoelhar-se diante de um ídolo, cometer homicídio, etc.”
ARTIGO 19: DA CAUSA DO PECADO
Com respeito à causa do pecado ensina-se entre nós
que, embora o Deus onipotente haja criado a natureza toda e a conserve, todavia
é a vontade pervertida que opera o pecado em todos os maus e desprezadores de
Deus. Pois esta é a vontade do diabo e de todos os ímpios, a qual, tão logo Deus
retraiu a mão, desviou-se de Deus para o mal, conforme diz Cristo Jo 8: “Quando
o diabo profere a mentira, fala do que lhe é próprio.”[48]
ARTIGO 20: DA FÉ E DAS BOAS
OBRAS
Os nossos são acusados falsamente de proibirem boas
obras. Pois os seus escritos sobre os Dez Mandamentos bem como outros escritos[49]
provam que deram bom e útil ensino e admoestação a respeito de estados e obras
cristãos verdadeiros, de que pouco se ensinou antes de nosso tempo. Insistia-se,
ao contrário, em todos os sermões principalmente em obras pueris e
desnecessárias, tais como rosários, culto de santos, vida monástica, romarias,
jejuns e dias santos prescritos, confrarias, etc. Também o nosso oponente já não
exalta essas obras desnecessárias tanto quanto antigamente. Além disso, também
aprenderam a falar agora da fé, sobre a qual nada pregaram em tempos anteriores.
Agora, contudo, ensinam que não nos tornamos justos diante de Deus unicamente
por obras, mas acrescentam a fé em Cristo, e dizem que a fé e as obras nos
tornam justos diante de Deus. Essa doutrina pode trazer um pouco mais consolo do
que quando apenas se ensina confiar em obras.
Visto, pois, que a doutrina da fé, que é o artigo principal no
cristianismo, foi negligenciada por tempo tão longo, como é forçoso confessar,
havendo-se pregado apenas doutrina de obras por toda a parte, os nossos deram a
seguinte instrução a respeito:
Em primeiro lugar, que nossas obras não nos podem
reconciliar com Deus e obter graça; isso, ao contrário, sucede apenas pela fé,
quando cremos que os pecados nos são perdoados por amor de Cristo, o qual, ele
só, é o mediador que pode reconciliar o Pai.[50]
Agora, quem pensa realizar isso mediante obras e imagina merecer a graça, esse
despreza a Cristo e procura seu próprio caminho a Deus, contrariamente ao
evangelho.
Essa doutrina respeito à fé é tratada aberta e
claramente por Paulo em muitas passagens, de modo especial em Efésios 2: “Pela
graça fostes salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós, porém é dom de Deus;
não de obras, para que ninguém se glorie, etc.”[51]
E que aqui não se introduziu interpretação nova é coisa que se pode provar
com Agostinho, que trata essa questão diligentemente e também ensina assim, a
saber, que alcançamos a graça e nos tornamos justos diante de Deus por
intermédio da fé em Cristo e não por obras, conforme mostra todo o seu livro
De spiritu et litera.
Conquanto essa doutrina seja muito desprezada entre
pessoas não experimentadas, verifica-se, todavia, que é muito consoladora e
salutar para as consciências tímidas a apavoradas. Porque a consciência não pode
alcançar descanso e paz mediante obras, porém somente pela fé, quando chega à
segura conclusão pessoal de que por amor de Cristo possui um Deus gracioso,
conforme também diz Paulo Rm 5: “Justificados mediante a fé, temos descanso e
paz com Deus”.[52]
Em sermões de outrora não se promoveu esse consolo, porém se impeliram as
pobres consciências para as próprias obras, e se empreenderam diversas espécies
de obras. A alguns a consciência impeliu para os mosteiros, na esperança de que
lá poderiam granjear graça mediante vida monástica. Alguns excogitaram outras
obras com o propósito de merecer graça e satisfazer por pecados. A experiência
de muitos deles foi não haverem alcançado a paz mediante essas coisas. Razão
por que foi necessário pregar essa doutrina da fé em Cristo e dela tratar
diligentemente, a fim de que se soubesse que é somente pela fé, sem mérito,
que se apreende a graça de Deus.
Dá-se, outrossim, instrução para mostrar que aqui não
se fala da fé possuída também pelos demônios e os ímpios, os quais também crêem
os relatos[53]
que contam haver Cristo padecido e que ressuscitou de entre os mortos; fala-se,
ao contrário, da fé verdadeira, que crê alcançarmos por Cristo a graça e a
remissão dos pecados.
Aquele que sabe que por Cristo possui um Deus
gracioso, esse conhece a Deus, o invoca, e não está sem Deus, como os gentios.
Porque demônios e ímpios não crêem nesse artigo da remissão dos pecados. Por
isso é que são inimigos de Deus, não o podem invocar, e nada de bom podem
esperar dele. A Escritura fala sobre a fé no sentido que acabamos de indicar, e
não entende por fé um conhecimento que demônios e homens ímpios têm. Pois em
Hebreus 11 ensina-se, com respeito à fé, que crer não é apenas conhecer a
história, mas ter confiança em Deus e receber sua promessa.[54]
E Agostinho também nos lembra que devemos entender a palavra “fé”, na Escritura,
como significando confiança em Deus de que nos é clemente, não apenas conhecer
tais notícias históricas que também os demônios conhecem.[55]
Ensina-se, ademais, que boas obras devem e têm de ser
feitas,[56]
não para que nelas se confie a fim de merecer graça, mas por amor de Deus e em
seu louvor. Sempre é a fé somente que apreende a graça e o perdão dos pecados. E
visto que pela fé é dado o Espírito Santo, o coração também se torna apto para
praticar boas obras. Porque antes, enquanto está sem o Espírito Santo, é
demasiadamente fraco. Além disso, está no poder do diabo, que impele a pobre
natureza humana a muitos pecados, como vemos nos filósofos que se lançaram à
empresa de viver vida honesta e irrepreensível e contudo não conseguiram
realizá-lo, porém caíram em muitos pecados graves e manifestos. É o que acontece
ao homem quando está sem a fé verdadeira e sem o Espírito Santo e se governa
apenas pela própria força humana.
Por isso não se deve fazer a essa doutrina
concernente à fé a censura de que proíbe boas obras; antes de ser louvada por
ensinar que se façam boas obras[57]
e oferecer auxílio quanto a como se possa chegar a praticá-las. Pois que sem a
fé e sem Cristo a natureza e capacidade humanas são por demais frágeis para
praticar boas obras, invocar a Deus, ter paciência no sofrimento, amar o
próximo, exercer com diligência ofícios ordenados, ser obediente, evitar maus
desejos, etc. Tais obras elevadas e autênticas não podem ser feitas sem o
auxílio de Cristo, conforme ele mesmo diz em Jo 15: “Sem mim nada podeis fazer.”[58]
ARTIGO 21: DO CULTO AOS
SANTOS
Do culto aos santos os nossos ensinam que devemos
lembrar-nos deles, para fortalecer a nossa fé ao vermos como receberam graça e
foram ajudados pela fé; e, além disso, a fim de que tomemos exemplo de suas boas
obras, cada qual de acordo com sua vocação, assim como Sua Majestade Imperial
pode seguir, salutar e piedosamente, o exemplo de Davi, fazendo guerra ao turco;[59]
pois ambos estão investidos em ofício real, que exige protejam e defendam os
seus súditos. Entretanto, não se pode provar pela Escritura que se devem invocar
os santos ou procurar auxílio junto a eles. “Porquanto há um só reconciliador e
mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo,” 1 Tm 2,[60]
o qual é o único Salvador, o único Sumo Sacerdote, Propiciatório e Advogado
diante de Deus Rm 8.[61]
E somente ele prometeu que quer atender a nossa prece. E buscar e invocar de
coração a esse Jesus Cristo em todas as necessidades e preocupações também é o
culto divino mais elevado segundo a Escritura: “Se alguém pecar, temos Advogado
junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo, etc.”[62]
Esta[63]
é, aproximadamente,[64]
a suma da doutrina que é pregada e ensinada em nossas igrejas, para correta
instrução cristã e consolo das consciências, e para melhora dos crentes. Pois
que de modo nenhum vamos querer pôr as nossas próprias almas e consciências
diante de Deus no mais sério, no maior dos perigos, mediante abuso do nome ou da
palavra de Deus, nem deixar ou herdar aos nossos filhos e descendentes doutrina
diversa da que concorda com a palavra pura, divina, e com a verdade cristã.
Visto, pois, que essa doutrina se fundamenta claramente na Sagrada Escritura, e
além disso não é contrária nem se opõe à igreja
cristã universal, e, na verdade, tampouco à Igreja Romana,[65]
quanto se pode coligir dos escritos dos Pais,[66]
pensamos também que os nossos oponentes não podem estar em desacordo conosco nos
artigos acima indicados. Agem, por isso, de maneira totalmente inamistosa,
precipitada e contrariamente a toda unidade e amor cristãos aqueles que por essa
razão empreendem, sem qualquer fundamento sólido em preceito ou Escritura
divina, separar, rejeitar e evitar os nossos como hereges. Porque o distúrbio[67]
e a dissensão dizem respeito precipuamente a algumas tradições e abusos.
Portanto, já que nos artigos principais não há ausência de fundamento ou defeito
perceptíveis,[68]
e sendo esta nossa confissão divina e cristã, deveriam os bispos, justiçosamente,
mostrar-se mais brandos, ainda que falha houvesse entre nós com respeito à
tradição, muito embora esperemos apresentar sólido fundamento e causa quanto à
razão por que entre nós houve mudança relativamente a algumas tradições e
abusos.
Artigos sobre os quais há divergências e em que
se recenseiam os abusos que foram corrigidos
Visto, pois, que em nossas igrejas nada[69]
se ensina sobre os artigos da fé que seja contrário à Sagrada Escritura ou à
igreja cristã universal,[70]
havendo-se apenas corrigido alguns abusos, que, em parte, se introduziram por si
mesmos com o correr do tempo, e em parte foram estabelecidos à força, vemo-nos
obrigados a recenseá-los e a indicar a razão por que nestes casos se admitiu
modificação, a fim de que a Majestade Imperial possa ver que não se procedeu
aqui de maneira não-cristã ou petulante,[71]
porém que fomos compelidos a permitir tal modificação pelo mandamento de Deus,
que com justiça se há de respeitar mais do que qualquer costume.
ARTIGO 22: DAS DUAS ESPÉCIES
DO SACRAMENTO
Aos leigos são dadas entre nós ambas as espécies do
sacramento, porque é clara ordem e mandamento de Cristo Mt 26:[72]
“Bebei dele todos.” Cristo aí ordena com palavras claras, a respeito do cálice,
que todos bebam dele.
E para que ninguém pudesse questionar essas palavras
e glosá-las como se[73]
pertencesse somente
aos sacerdotes, Paulo[74]
mostra, em 1 Co 11, que toda a assembléia da igreja corintíaca usou de ambas as
espécies. E esse uso continuou por longo tempo na igreja, conforme se pode
provar com a história e os escritos dos Pais.[75]
Cipriano[76]
menciona em muitos lugares que naquele tempo se dava o cálice aos leigos. E São
Jerônimo diz que os sacerdotes que administram o sacramento distribuem ao povo o
sangue de Cristo.[77]
O próprio Papa Gelásio ordena que não se divida o sacramento Distinct .
2 . De
consecratione cap.
Comperimus.[78]
Também não se encontra em parte nenhuma[79]
um cânone que ordene se receba apenas uma das espécies. E ninguém pode saber
quando ou por quem foi introduzido esse costume de receber uma só espécie, ainda
que o Cardeal Cusano menciona o tempo em que esse uso teria sido aprovado.
Agora, é manifesto que tal costume, introduzido contrariamente ao preceito de
Deus, bem como contrariamente aos cânones antigos, é incorreto. Razão por que
foi impróprio onerar as consciências daqueles que desejaram fazer uso do santo
sacramento de acordo com a instituição de Cristo, e coagi-los a procederem
contrariamente à ordenação de Cristo Senhor nosso. E visto ser a divisão do
sacramento contrária à instituição de Cristo, omite-se também entre nós a
costumeira procissão com o sacramento.[80]
ARTIGO 23: DO MATRIMÔNIO DOS
SACERDOTES
Houve no mundo entre todos, quer de alto, quer de
baixo estado, magna e poderosa queixa a respeito de grande incontinência e
procedimento e vida dissolutos dos sacerdotes que não foram capazes de se
manterem continentes, e, na verdade, se alcançara o auge com tais vícios
terríveis. Para evitar tanto escândalo feio e grande, adultério e outra
impudicícia, alguns sacerdotes entre nós entraram no estado matrimonial. Com
razão indicam que a isso foram impelidos e movidos por grande aflição de suas
consciências, à vista do fato de a Escritura testemunhar claramente que o estado
matrimonial foi instituído pelo Senhor Deus para evitar impureza, como diz
Paulo: “Por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa.”[81]
Também: “É melhor casar do que viver abrasado.”[82]
E Cristo, ao dizer, em Mt 19: “Nem todos captam essa palavra”,[83]
indica, ele que bem sabia qual a situação do homem, que poucas pessoas têm o dom
da castidade. “Pois Deus criou o ser humano como homem e mulher” Gênesis 1.[84]
Se está ou não no poder ou capacidade do homem melhorar ou modificar, sem
especial dom e graça de Deus, por resolução ou voto próprios, a criação de Deus,
a excelsa Majestade, decidiu-o muito claramente a experiência. Qual o bem, que
vida honrosa e casta, que conduta cristã, honesta ou íntegra daí resultou no
caso de muitos, quão terrível e pavoroso desassossego e tormento de consciência
muitos tiveram no fim da vida por causa disso, é coisa manifesta, e muitos
dentre eles o confessaram pessoalmente. Como, pois, a palavra e o mandamento de
Deus não podem ser alterados por nenhum voto ou lei humanos, por essas e outras
razões e causas os sacerdotes e outros clérigos casaram.
Também se pode provar com a história e os escritos
dos Pais que na igreja cristã antiga houve o costume de os sacerdotes e diáconos
casarem.[85]
Diz Paulo, em vista disso 1 Tm 3: “É necessário, portanto, que o bispo seja
irrepreensível, esposo de uma só mulher”.[86]
E faz apenas quatrocentos anos que na Alemanha os sacerdotes foram compelidos à
força a deixarem o matrimônio e fazerem voto de castidade. Todos se opuseram a
isso com tamanha seriedade e rijeza, que um arcebispo de Mogúncia, o qual
publicara o novo edito papal a respeito, quase foi morto no tumulto de uma
revolta de todo o corpo sacerdotal.[87]
E aquela proibição logo no começo foi efetivada com tanta rapidez e
impropriedade, que o papa, ao tempo, não só proibiu o matrimônio de sacerdotes
para o futuro, mas ainda rompeu o casamento daqueles que havia muito já estavam
nesse estado, o que não é apenas contrário a todo direito, divino, natural e
civil, mas também inteiramente oposto e contrário aos cânones estabelecidos
pelos próprios papas, bem como aos mais renomados concílios.[88]
Também se tem ouvido freqüentes vezes muitas pessoas
eminentes, devotas e sensatas expressarem opiniões e receios similares: que tal
celibato obrigatório e privação do matrimônio, que o próprio Deus instituiu e
deixou livre ao homem, nunca produziu qualquer bem, mas introduziu muitos
vícios grandes e malignos e muitas maldades. Até um dos papas, Pio II, conforme
mostra sua biografia, muitas vezes disse - e permitiu que lhe fossem atribuídas
- estas palavras: que pode haver algumas razões por que seja o matrimônio
proibido aos clérigos; mas que havia razões muito mais elevadas, muito maiores e
muito mais importantes por que novamente se lhes devia deixar livre o
matrimônio.[89]
Sem dúvida nenhuma, o Papa Pio, como homem ajuizado e sábio, falou essa palavra
por causa de grave receio.[90]
Queremos, por isso, em submissão à Majestade Imperial, confiar que Sua
Majestade, como imperador cristão, digno de alto louvor, graciosamente levará
em conta que ao presente, nesses últimos tempos e dias, de que faz menção a
Escritura, o mundo se tornará cada vez pior e os homens sempre mais infirmes e
frágeis.
Por isso é muito necessário, útil e cristão fazer esse exame cuidadoso, a
fim de não suceder que, proibido o casamento, se alastrem piores e mais
vergonhosas impudicícias e vícios nas terras germânicas. Pois que sem dúvida
ninguém será capaz de alterar ou fazer essas coisas mais sabiamente ou melhor
que o próprio Deus, que instituiu o matrimônio, para socorrer a fragilidade
humana e prevenir a impureza.
Assim também os antigos cânones dizem que de vez em
quando se deve abrandar e relaxar a severidade e o rigor,[91]
por causa da fragilidade humana e a fim de acautelar e atalhar coisas piores.
Ora, tal sem dúvida seria cristão e mui necessário também no caso presente.
E que prejuízo poderia trazer para a igreja cristã universal o matrimônio dos
sacerdotes e do clero, especialmente o dos pastores e de outros que devem servir
a igreja ? A continuar por mais tempo essa dura proibição do matrimônio,
provavelmente haverá falta de sacerdotes e pastores no futuro.
Estando, pois, fundamentado na palavra e no
mandamento de Deus isso de os sacerdotes e clérigos poderem casar, e provando a
história, além disso, que os sacerdotes casavam, e havendo o voto de castidade
produzido número tão elevado de feios e incristãos[92]
escândalos, tanto adultério, tão horrível e inaudita imoralidade e vícios
hediondos, que até alguns homens honestos de entre os cônegos,[93]
bem como alguns cortesões[94]
de Roma, muitas vezes reconheceram o fato e lastimosamente alegaram que tais
vícios in clero,[95]
por horrendos e desmedidos, haveriam de suscitar a ira de Deus, é deplorável que
o matrimônio cristão não só tenha sido proibido, mas que em alguns lugares se
haja tido o atrevimento de castigá-lo sem demora, como se fosse grande maldade,
não obstante haver Deus ordenado na Sagrada Escritura que se tenha em toda a
honra o estado matrimonial. Da mesma forma é o matrimônio grandemente exaltado
no direito imperial e em todas as monarquias em que houver leis e direito. Só[96]
em nosso tempo é que se começa a martirizar as pessoas, apesar de inocentes,
apenas por causa de casamento, e acresce que se faz isso com sacerdotes, que
deveriam ser poupados acima de outros. E isto sucede não só contrariamente ao
direito divino, mas ainda em oposição aos cânones. Paulo apóstolo 1 Tm 4 chama
às doutrinas que proíbem o casamento ensino de demônios.[97]
Assim o mesmo Cristo diz Jo 8 que o diabo é homicida desde o princípio.[98]
Bem concordam as duas sentenças, por forma que realmente devem ser ensinos de
demônios proibir o casamento e atrever-se a manter semelhante doutrina com
derramamento de sangue.
Todavia, assim como nenhuma lei humana pode abrir ou
modificar o mandamento de Deus, da mesma forma também nenhum voto pode alterar o
preceito divino. Essa também a razão de São Cipriano aconselhar deverem casar as
mulheres que não guardam a castidade jurada, e diz epist. 11 assim: “Se,
porém, não querem ou não podem guardar a castidade, é melhor que casem do que
caírem no fogo por sua volúpia. E devem acautelar-se bem para não causarem
nenhum escândalo aos irmãos e irmãs.[99]
Ademais, todos os cânones mostram grande leniência e eqüidade para com
aqueles que fizeram voto quando jovens. E foi na mocidade que a maioria dos
sacerdotes e monges acabou nesse estado, por ignorância.
ARTIGO 24: DA MISSA
Injustamente são ao nossos acusados de haverem abolido a missa. Pois é
manifesto, sem jactância, que a missa entre nós é celebrada com maior devoção e
seriedade que entre os adversários. E as pessoas também são instruídas muitas
vezes e com o máximo zelo sobre o santo sacramento, para que foi instituído e
como deve ser usado, a saber, a fim de com ele consolar as consciências
atemorizadas, através do que o povo é atraído para a comunhão e missa. Ao mesmo
tempo também se dá instrução contra outras, errôneas doutrinas concernentes ao
sacramento. Não houve, outrossim, modificação notável nas cerimônias públicas da
missa, à exceção do fato de em alguns lugares se cantarem hinos alemães além dos
latinos, para instruir e exercitar o povo, já que a finalidade principal de
todas as cerimônias é que o povo delas aprenda o que lhe é necessário saber de
Cristo.
Antes de nosso tempo, entretanto, a missa foi
mal-usada de diversas maneiras, como é notório, de tal sorte, que foi
transformada em feira, havendo sido comprada e vendida, e, na maior parte,
celebrada em todas as igrejas por causa do dinheiro. Homens eruditos e piedosos
censuraram esse abuso repetidas vezes, mesmo antes de nosso tempo. Depois que os
pregadores entre nós pronunciaram sermões a esse respeito e os sacerdotes foram
advertidos da terrível ameaça[100]
que deve com justiça[101]
mover a todo cristão, a saber, que é réu do corpo e do sangue de Cristo quem
usar o sacramento indignamente,[102]
depois disso essas missas comerciais e missas particulares,[103]
que até aqui haviam sido celebradas compulsoriamente por causa do dinheiro e
das prebendas,[104]
foram abolidas em nossas igrejas.
Ao mesmo tempo foi censurado o terrível erro de se haver ensinado que
Cristo, Senhor nosso, mediante a sua morte satisfez apenas pelo pecado original
e que instituiu a missa como sacrifício pelos outros pecados, tendo-se, assim,
transformado a missa em sacrifício pelos vivos e pelos mortos, sacrifício pelo
qual se tirem pecados e se reconcilie a Deus. Disso, ademais, resultou haver-se
discutido se uma missa rezada por muitos merecia tanto como dizer missas
especiais para indivíduos. Daí é que veio a grande, inumerável multiplicidade de
missas, de forma tal, que se quis com essa obra alcançar junto a Deus tudo
quanto se precisava. Entrementes, a fé em Cristo e o culto verdadeiro ficaram
esquecidos.
Houve, por isso, instrução a respeito, como sem
dúvida o exigia a necessidade, para que se soubesse qual a maneira acertada de
usar o sacramento. Em primeiro lugar, a Escritura mostra, em muitos lugares, que
pelo pecado original e por outros pecados nenhum sacrifício há senão a só morte
de Cristo. Pois está escrito ad Hebraeos[105]
que Cristo se ofereceu uma única vez, satisfazendo com esse sacrifício por todos
os pecados.[106]
É novidade de todo inaudita na doutrina eclesiástica isso de que a morte de
Cristo haja satisfeito somente pelo pecado hereditário e não também por outros
pecados. É de se esperar, por isso, compreendam todos[107]
que esse erro não foi censurado injustamente.
Em segundo lugar, São Paulo ensina que alcançamos graça diante de Deus pela
fé, não por obras. Manifestamente contrário a isso é o abuso da missa de pensar
que se obtém graça mediante essa obra. E é sabido que se usa a missa a fim de
por ela remover pecados, bem como para conseguir de Deus graça e toda sorte de
bens, não apenas o sacerdote para si mesmo, porém ainda pelo mundo inteiro e por
outros, vivos e mortos.
Em terceiro lugar, o santo sacramento foi instituído não para com ele
estabelecer um sacrifício pelo pecado - pois o sacrifício já sucedeu
anteriormente - , mas a fim de que por ele se nos desperte a fé e se consolem as
consciências, as quais pelo sacramento percebem que Cristo lhes promete a graça
e a remissão dos pecados. Razão por que esse sacramento requer fé, sendo em vão
seu uso sem fé.
Visto, pois, que a missa não é sacrifício para tirar
os pecados de outros, vivos ou mortos, devendo, ao contrário, ser comunhão em
que o sacerdote e outros recebem o sacramento para si mesmos, observa-se entre
nós o costume de celebrar missa em dias santos, e, havendo comungantes, em
outros dias; e aqueles que o desejam são comungados. De sorte que entre nós a
missa é preservada em seu uso correto, tal como foi observada na igreja em
outros tempos, conforme se pode provar com São Paulo 1 Co 11.[108]
e além disso pelos escritos de muitos Pais. Crisóstomo informa como o sacerdote,
diariamente, fica em pé e convida uns à comunhão e a outros proíbe que se
aproximem. Também indicam os cânones antigos que um oficiava e comungava os
outros sacerdotes e diáconos. Pois assim rezam as palavras no cânone niceno: Os
diáconos, de acordo com sua ordem, devem receber o sacramento depois dos
sacerdotes, das mãos do bispo ou do sacerdote.[109]
Já que nisso não se introduziu, por conseguinte,
nenhuma coisa nova, que não haja existido na igreja desde tempos antigos, e
visto que também não houve modificação notável nas cerimônias públicas da missa,
excetuado o fato de as outras missas, desnecessárias, rezadas, talvez[110]
por abuso, a de mais da missa paroquial,[111]
foram eliminadas, não se deve, por justiça, condenar como herética e não-cristã
essa maneira de celebrar missa. Pois em tempos passados, também nas igrejas
grandes, onde havia gente, não se rezava missa diariamente , nem mesmo nos dias
em que o povo se reunia. Conforme indica a Tripartita Histria lib. 9,[112]
em Alexandria, às quartas e sextas-feiras, era lida e interpretada a Escritura,
e realizavam-se os demais atos de culto sem a celebração da missa.
ARTIGO 25: DA CONFISSÃO
Os nossos pregadores não aboliram a confissão. Pois
conserva-se entre nós o costume de não dar o sacramento àqueles que não foram
previamente examinados e absolvidos. Ao mesmo tempo se instrui diligentemente o
povo sobre o quanto é consoladora a palavra da absolvição e em quão elevada
estima se deve ter a absolvição. Pois que não é voz ou palavra do homem que a
pronuncia,[113]
senão palavra de Deus, o qual perdoa os pecados. Por que é pronunciada em lugar
de Deus e por ordem de Deus. No tocante a essa ordem e poder das chaves
ensina-se, com grande diligência, quanto é consoladora e necessária para as
consciências aterrorizadas. Ensina-se, além disso, como Deus Exige que creiamos
nessa absolvição, não menos do que se a voz de Deus soasse do céu, e que
alegremente nos devemos consolar da absolvição e saber que por essa fé
alcançamos a remissão dos pecados. Em tempos passados os pregadores, que
ensinavam muito a respeito da confissão, não mencionaram sequer uma palavrinha
concernente a esses pontos necessários, porém apenas martirizaram as
consciências com longa enumeração de pecados, com satisfações, indulgências,
romarias e coisas semelhantes. E muitos de nossos oponentes confessam eles
mesmos que escrevemos e tratamos do verdadeiro arrependimento cristão mais
apropriadamente do que se fez, anteriormente, por longo tempo.
E da confissão se ensina assim: que ninguém deve ser
constrangido a contar os pecados designadamente.[114]
Porque isso é impossível, conforme diz o Salmo: “Quem conhece os delitos?”[115]
E Jeremias diz: “Tão maligno é o coração do homem, que não há penetrar-lhe os
segredos.”[116]
A mísera natureza humana está engolfada tão profundamente em pecados, que é
incapaz de ver ou conhecer a todos, e se fôssemos absolvidos apenas daqueles que
podemos enumerar, pouco nos ajudaria isso. Razão por que é desnecessário
constranger as pessoas a contarem os pecados nomeando-os expressamente. Assim
também pensaram os Pais, como se vê em Dist. I de poenitentia, onde são
citadas estas palavras de Crisóstomo: “Não digo que te exponhas publicamente,
nem que a ti mesmo denuncies ou declares culpado junto a outrem, mas obedece ao
profeta, que diz: “Revela ao Senhor os teus caminhos.”[117]
Por isso, além de tua oração, confessa-te ao Senhor Deus, o verdadeiro juiz: não
diga os teus pecados com a língua, mas em tua consciência.”[118]
Aqui se vê claramente que Crisóstomo não obriga a uma enumeração especificada
dos pecados. Também a Glossa in Decretis, de poenitentia, Dist. 5 ensina
que a confissão não é ordenada pela Escritura, porém que foi instituída pela
igreja.[119]
Os nossos pregadores, todavia, ensinam diligentemente que a confissão deve ser
conservada por causa da absolvição - que é sua parte principal e mais importante
- , para consolo das consciências aterrorizadas, e ainda por algumas outras
razões.[120]
ARTIGO 26: DA DISTINÇÃO DE
COMIDAS
Em tempos anteriores ensinou-se, pregou-se e
escreveu-se que diferença de comidas e tradições semelhantes instituídas por
homens servem para merecer graça e satisfazer pelos pecados.[121]
Por essa razão se excogitaram diariamente novos jejuns, novas cerimônias, novas
ordens e coisas semelhantes, e nisso se insistiu com veemência e energia, como
se tais coisas fossem culto divino necessário pelo qual se merecesse graça se a
gente o observasse e como se sua inobservância constituísse grande pecado.
Disso resultaram muitos erros perniciosos na igreja.
Em primeiro lugar, com isso se obscurecem a graça de Cristo e a doutrina da
fé, que o evangelho põe diante de nós com grande seriedade, insistindo
vigorosamente que se considere o mérito de Cristo como algo de grande e precioso
e se saiba que a fé em Cristo deve ser posta muito acima de todas as obras. Por
isso São Paulo batalhou com veemência contra a lei de Moisés e as tradições
humanas, para aprendermos que diante de Deus não nos tornamos piedosos mediante
as nossas obras, porém somente pela fé em Cristo, que alcançamos a graça por
amor de Cristo. Essa doutrina extinguiu-se quase que por completo com isso de
se haver ensinado a merecer graça por jejuns prescritos, distinção de manjares,
vestimenta, etc.
Em segundo lugar, tais tradições também obscureceram os mandamentos de
Deus, pois foram colocadas muito acima dos preceitos divinos. Só se considerava
vida cristã isto: observar as festas dessa maneira, rezar dessa maneira, jejuar
dessa maneira, vestir-se dessa maneira. A isso é que se chamava vida espiritual,
cristã. Ao mesmo passo, outras obras necessárias e boas eram consideradas coisa
mundana, não-espiritual, a saber, aquelas que cada qual deve fazer de acordo com
sua vocação, como, por exemplo, que o chefe de família trabalhe para sustentar
mulher e filhos e criá-los no temor de Deus, que a mãe de família dê a luz
filhos e zele por eles, que um príncipe e magistrado governe o país e o povo,
etc. Tais obras, ordenadas por Deus, cumpria tê-las na conta de coisa secular e
imperfeita. As tradições, porém, tinham de ter o esplêndido nome de serem as
únicas obras santas e perfeitas. Razão por que não havia limite nem fim quanto à
feitura de tais tradições.
Em terceiro lugar, essas tradições se tornaram grande peso para as
consciências. Porque não era possível guardá-las todas, e o povo todavia pensava
que isso era culto divino necessário. Escreve Gérson que muitos caíram em
desespero com isso e alguns até cometeram suicídio por não terem ouvido nenhum
consolo da graça de Cristo. Vê-se nos sumistas e teólogos como as consciências
eram confundidas. Meteram eles ombro à tarefa de coligir as tradições e
procuraram atenuantes para auxiliar as consciências. Tanto se ocuparam com isso,
que entrementes ficaram negligenciados todos os salutares ensinamentos cristãos
a respeito de coisas mais necessárias, como, por exemplo, a fé, o consolo em
tentações severas, e coisas semelhantes. Também grande número de pessoas
piedosas e eruditas antes de nosso tempo queixaram-se muito de que tais
tradições causavam muita contenda na igreja e de que pessoas devotas eram
impedidas com isso de chegarem ao verdadeiro conhecimento de Cristo. Gérson e
alguns outros fizeram queixa veemente a esse respeito. Na verdade, também
desagradou a Agostinho o fato de as consciências haverem sido oneradas com
tantas tradições. Razão por que no assunto dá instrução no sentido de que não se
devem considerá-las coisas necessárias.
Os nossos, por isso, não ensinaram acerca dessas coisas por petulância ou
desprezo da autoridade espiritual: foi, isto sim, a grande necessidade que
exigiu dessem instrução concernente aos erros supramencionados, que surgiram de
inteligência errônea da tradição. Porque o evangelho obriga a urgir na igreja a
doutrina da fé, a qual, todavia, não pode ser entendida quando se pensa merecer
graça por obras de própria escolha.
Ensina-se a esse respeito que pela observância das
mencionadas tradições humanas não se pode merecer graça, ou reconciliar a Deus,
ou satisfazer pelo pecado. E por isso não se deve fazer delas culto divino
necessário. Para tanto citamos razões da Escritura. Em Mt 15[122]
Cristo escusa os apóstolos quando não observaram tradições costumeiras, e diz:
“Em vão me adoram com preceitos humanos.”[123]
Ora, se a isso chama de culto vão, não pode ser necessário. E logo em seguida:
“Não é o que entra pela boca o que contamina o homem.”[124]
Paulo também diz Rm 14: “O reino de Deus não é comida nem bebida.”
[125]Cl
2: “Ninguém vos julgue por causa de comida, bebida, sábados, etc.”[126]
Diz Pedro em Atos 15: “Por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos
discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós? Mas cremos que
seremos salvos pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo, como também aqueles o
foram.”[127]
Aqui Pedro proíbe onerar as consciências com mais cerimônias externas, sejam de
Moisés, sejam de outro. E em 1 Tm 4 interdições tais como proibir comidas,
proibir o casamento, etc. são chamadas doutrinas de demônios.[128]
Pois é diametralmente oposto ao evangelho instruir ou fazer semelhantes obras
com o fim de por elas merecer perdão dos pecados ou por pensar que ninguém pode
ser cristão em tal culto.
Agora, quanto ao fato de aqui os nossos serem
acusados de proibir mortificação e disciplina, como fez Joviniano,[129]
colher-se-á coisa bem diversa dos escritos deles. Pois com respeito à santa cruz
sempre ensinaram que os cristãos devem sofrer, e isto é mortificação verdadeira,
séria, que não inventada.
Ensinam, além disso, que cada um deve haver-se de tal
maneira com exercício corporal, como jejum e outros labores, que não dê ocasião
ao pecado, não para merecer graça com tais obras. Esse exercício corporal não
deve ser praticado apenas em alguns dias determinados, mas continuamente. Cristo
fala disso em Lc 21: “Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda
que os vossos corações fiquem sobrecarregados com as conseqüências da orgia”.[130]
Também: “Essa casta de demônios não pode ser expulsa senão por meio de jejum e
oração.”[131]
E Paulo diz que esmurra o seu corpo e o reduz à obediência.[132]
Com isso indica que a mortificação não deve servir para a finalidade de com ela
merecermos graça, mas para manter o corpo idôneo, a fim de que não impeça o que
a cada qual é ordenado fazer segundo a sua vocação. De sorte que não se condena
o jejum, mas isso de se haver feito dele um culto necessário, com dias e comidas
determinados, para confusão das consciências.
Também se guardam entre nós muitas cerimônias e tradições, como a ordem da missa e outros cânticos, festas, etc., que servem para manter ordem na igreja. Ao mesmo tempo, todavia, ensina-se ao povo que esse culto divino externo não torna justo diante de Deus e que se deve observá-lo sem onerar a consciência, por forma que, se for omitido sem causar escândalo, não há nisso pecado. Essa liberdade em cerimônias exteriores também foi mantida pelos Pais antigos. Pois no Oriente a Páscoa era celebrada em época diversa da de Roma. E como alguns quisessem considerar essa diversidade como cisma na igreja, foram admoestado por outros de que não era necessário observar uniformidade em tais costumes. Ireneu diz o seguinte: “Diferença no jejum não rompe a unidade da fé.”[133] Também na Dist. 12 está escrito, no tocante a essa dessemelhança em ordenações humanas, que ela não contraria a unidade da cristandade. E a Tripartita Hist. lib. 9 colige muitos usos eclesiásticos desiguais e inclui uma proveitosa sentença cristã: “Não foi intenção dos apóstolos instituir dias santos, mas ensinar fé e amor.”[134]