SANTOS DE OUTUBRO

 

 

 

 

 

04 de outubro:

São Francisco de Assis, Frade, 1226.

 

São Francisco de Assis nascido Francesco Bernardone (Assis, na Úmbria, Itália, 26 de setembro de 1181 - 3 de Outubro de 1226), foi um Santo vindo de uma família de comerciantes. Sua mãe talvez fosse francesa, o pai chamava-se Pedro Bernadone. Em Assis ficou conhecido como Francisco, ou seja o "pequeno francês".

O nome de batismo inicial era Giovane di Bernardone (João Bernardone), dado pela mãe provavelmente em homenagem a João Batista, que o pai, Pedro Bernardone, altera para Francesco Bernardone. Por razões ainda muito controversas, acredita-se que o nome seria em homenagem à França, país com quem mantinha relações comerciais; outra hipótese fala que teria sido terra natal de sua mulher; outra ainda que se tratava de um apelido dado pelos amigos pelo fato de o santo usar muito a língua francesa.

Renunciou ao mundo em 1206, fez penitência durante dois anos e lançou-se a pregar em linguagem simples e ardorosa. Tem-se dito, que, imitando a cavalaria, Francisco também teve a sua dama, Madonna Povertà, a Senhora Pobreza, que ele serviu e cantou com grande entusiasmo. Em 1209 formou, com doze discípulos, a família dos doze irmãos menores. Os Clunicenses de Assis cederam-lhes um pouco de terreno, a porciúncula, e os Franciscanos construíram ali as suas choças. Adotaram vestuário dos humildes: túnica grossa de lã, com uma corda na cinta, e sandálias. A sua missão consistia em praticar e pregar simplicidade e amor a Deus e a caridade cristã. Esteve em Espanha e África, onde se juntou aos cruzados do Nilo. Fundou a Ordem dos Frades Menores em 16 de Abril de 1209. Em 1212 recolhe junto de si Clara d'Offreducci e algumas companheiras, que, perseguindo o mesmo ideal de pobreza, funda a Ordem das Clarissas.

Francisco tornou-se um árduo defensor da não-violência, não apenas em relação aos seres humanos, mas a toda natureza. Assim, amava e respeitava todas as pessoas, ao mesmo tempo, que protegia animais e plantas aos quais chamava, carinhosamente, de irmãos. Para ele, também a chuva, o vento e o fogo deveriam ser reverenciados e respeitados como irmãos. Nunca consumia mais que o mínimo necessário para viver e incentivava a todas as pessoas a fazerem o mesmo. São Francisco é respeitado por várias religiões pela sua mensagem de paz. Ficou famosa uma oração atribuída a ele que começa com os dizeres "Senhor, fazei-me instrumento de Vossa paz...". Embora não haja certeza de sua autoria, ela reflete mais que qualquer outra os ensinamentos e a vida desse grande homem, reconhecido como santo no mundo todo e adotado como patrono da Ecologia e, porque não, da paz.

É dele a "Carta aos Governantes dos Povos": A todos os podestás, cônsules, juizes e regentes no mundo inteiro, e a todos quantos receberem esta carta, Frei Francisco, mísero e pequenino servo no Senhor, deseja saúde e paz. Considerai e vede que "se aproxima o dia da morte"(Gn 47,29). Peço-vos, pois, com todo o respeito de que sou capaz que, no meio dos cuidados e solicitudes que tendes neste século, não esqueçais o Senhor nem vos afastes dos seus mandamentos. Pois todos aqueles que o deixam cair no esquecimento e "se afastam dos seus mandamentos" são amaldiçoados (Sl 118,21) e serão por Ele "entregues ao esquecimento" (Ez 33,13). E quando chegar o dia da morte, "tudo o que entendiam possuir ser-lhe-á tirado" (Lc 8,18). E quanto mais sábios e poderosos houverem sido neste mundo, tanto maiores "tormentos padecerão no inferno" (Sb 6,7). Por isso aconselho-vos encarecidamente, meus senhores, que deixeis de lado todos os cuidados e solicitudes e recebais com amor o santíssimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ocasião de sua santa memória. Diante do povo que vos foi confiado, prestai ao Senhor este testemunho público de veneração: todas as tardes mandai proclamar por um pregoeiro, ou anunciai por algum sinal, que todo povo deverá render graças e louvores ao Senhor Deus Todo-Poderoso. E se não o fizerdes, sabei que havei de dar conta perante vosso Senhor Jesus Cristo no dia do juízo. Os que levarem consigo este escrito e o observarem saibam que serão abençoados por Deus nosso Senhor.

Vida e Obra de São Francisco de Assis

Este Santo homem, pequeno e frágil, não vivia para si mesmo, mas para aquele que morreu por todos nós. Enchia a terra com o Evangelho de Cristo e em um dia percorria 4 ou 5 povoados anunciando o Reino de Deus, a Salvação, a Penitência e a Oração. Não sabia favorecer a vida dos pecadores e os repreendia pacientemente. Seus maiores milagres sempre foram através da Oração. São Francisco era como um rio caudaloso de graça celeste que alimentava os corações com sua palavra e exemplo, propunha uma nova forma de vida, o caminho da salvação, o amor a Deus. Estava sempre preocupado com a construção espiritual de seus filhos, o caminho das virtudes, a pobreza, obediência, a castidade e sobretudo com a renúncia. São Francisco tinha o rosto alegre, de olhar simples, afeto sincero e com o abraço fraterno colhia os desamparados. Amava tanto a Deus que lutava constantemente pela salvação das almas, seu amor ao próximo era tão intenso que quando não podia mais andar e quase cego, percorria as terras montado em um jumento para levar a benção do Senhor. Em seu amor a Deus sempre repetia: "Senhor! Minha alma tem sede de Vós e meu corpo mais ainda". Veio ao mundo com assinalado e luminoso destino, filho de pais abastados, nasceu em Assis velha cidade da Itália, situada na região da Úmbria em 26 de Setembro de 1182 e foi criado no luxo e na vaidade. Seu pai Pedro Bernardone, rico comerciante de tecidos, sonhava fazê-lo homem de negócios e de fortuna, mas Francisco, de gênio alegre e cavalheiresco pensava mais nas glorias do mundo do que nos negócios. Em 1202, com 20 anos, foi a guerra entre sua cidade natal e Perúgia, ao partir, jurou voltar consagrado cavaleiro. Caiu prisioneiro, ficando um ano na prisão. Comportou-se com serenidade, levantou a moral dos seus companheiros, transmitindo confiança e alegria. É resgatado pelo pai, por estar muito doente. Permanece um tempo em Assis para sua recuperação. Após uma mensagem em sonhos quis alistar-se novamente, mais ainda debilitado e doente, desiste e aceita os desígnios de Deus.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Assis

 

 

 

 

06 DE OUTUBRO:

WILLIAM TYNDALE, PRESBÍTERO, 1536

O pai da Bíblia Inglesa


Foto:http://www.satucket.com/lectionary/William_Tyndale.htm


William Tyndale nasceu aproximadamente em 1483, na vila de North Nibley. Ordenado ao sacerdócio em 1502, ele se distinguiu em Oxford recebendo o seu de Bacharel em Artes, em 1515. Mais tarde ele se transferiu para Cambridge, onde se tornou familiarizado com Erasmo e o seu Novo Testamento Grego. Enquanto atravessava esse tempo de reflexão, Tyndale experimentou uma iluminação espiritual semelhante à de Lutero.

Quanto mais ele estudava esse tesouro recém descoberto, mais acentuada se tornava a sua preocupação no sentido de que os seus companheiros ingleses dele compartilhassem. Foi durante esse período de formação que aconteceu a clássica discussão de Tyndale com um papista fanático. Antagonizado pela sua incapacidade de refutar a racionalização bíblica de Tyndale, o exasperado sacerdote gritou: "seria melhor que ficássemos sem as leis de Deus do que sem as leis do papa", ao que Tyndale retorquiu indignado:

Desafio o papa e todas as suas leis; e se Deus me poupar a vida por muitos anos, levarei um garoto que conduz o arado a conhecer mais a Escritura do que vós.

Com essas audaciosas palavras representando a motivação de toda a sua vida, Tyndale decidiu resgatar os seus iletrados patrícios da desesperança e infelicidade do Romanismo, declarando:

Essa causa apenas me conduziu a traduzir o Novo Testamento. Porque eu havia percebido, por experiência, como seria impossível levar o povo leigo à verdade, a não ser que as Escrituras fossem claramente colocadas diante dos seus olhos na língua mãe.

O pedido de Tyndale para se alojar com o renomado Cuthbert Tonstal, Bispo de Londres. recebeu uma fria negativa. Do mesmo modo como o estalajadeiro de Belém negou abrigo à "Palavra Viva" o prelado indiferente fez o mesmo ouvido surdo à "Palavra Escrita", nenhum deles reconhecendo o tempo de sua visitação.

O Senhor compensou essa humilhação, enviando Tyndale até um comerciante simpático, o qual não apenas abriu sua residência em Londres, para o Reformador, como ainda lhe deu dez libras de presente, pedindo-lhe que orasse por "seu pai, sua mãe, suas alma e todas as almas cristãs". Contudo seis meses depois do início da tradução, Tyndale detectou uma crescente hostilidade dos oficiais lacaios contra o seu projeto. Grande parte dessa pressão foi atribuída às pazes de Henrique VIII com Roma, a respeito do controvertido pedido de anulação do seu casamento com a "estéril" rainha Catarina. Tyndale conclui com tristeza:

A partir daí, percebi que não apenas no palácio do bispo de Londres, mas em toda a Inglaterra, não havia lugar onde eu pudesse tentar uma tradução das Escrituras.

Em face dessas condições inaceitáveis, Tyndale transferiu-se para a Alemanha, em 1524, sem imaginar que jamais colocaria os pés novamente em solo inglês (Contudo, Foxe chamou Tyndale de "o Apóstolo da Inglaterra").

Tendo garantido alojamento em Hamburgo, o fugitivo fez uma peregrinação imediata até Wittenberg. O patrocínio negado a Tyndale por Tonstal foi mais do que compensado pelo audacioso Lutero, que iria declarar sem timidez: "Nasci para a guerra e a luta contra as facções e os demônios" .

O Dr. J. R. Green captou o espírito contagiante de Lutero com a narrativa da visita deste a Tyndale:

Encontramo-lo em seu caminho para a cidadezinha que havia repentinamente se tornado a cidade sagrada da Reforma. Estudantes de todas as nações ali se reuniam com um entusiasmo que lembrava aquele dos cruzados. "Quando vinham para ver a cidade", conta-nos um contemporâneo, "retornavam graças a Deus com as mãos preparadas para de Wittenberg, como a partir de Jerusalém fosse a luz da verdade do evangelho espalhada até aos confins da terra". Foi por insistência de Lutero que Tyndale ali traduziu os evangelhos e as epístolas.

Tyndale receberia muita coragem para suas futuras experiências da parte do austero alemão, cuja visão pessoal sobre os perturbadores era essa: "você não pode enfrentar um rebelde com a razão. Sua melhor resposta é esmurrá-lo no rosto até que ele sangre pelo nariz".


Com o coração reanimado, Tyndale iniciou o seu esforço pioneiro de produzir a Bíblia Inglesa traduzida diretamente das línguas originais. Partiu dele uma excepcional concessão para uma tão grandiosa ventura. O professor Herman Buschais descreveu Tyndale para Spalatin como:

Um homem tão versado nas sete línguas: Hebraico, Grego, Latim, Italiano, Espanhol, Inglês e Francês, que qualquer uma que ele falasse poderia dar a impressão de ser a sua língua nativa.

Esta erudição foi confirmada no comparecimento de Tyndale diante dos editores de Colônia, Quental e Byrschmann, antes de completar um ano. Embora desconhecido a Tyndale, o arqui-nimigo de Lutero, o teólogo católico John Cochlaeus, Deão da Igreja da Bendita Virgem em Frankfurt, seguiu direto em suas pegadas. Quando viu os católicos na Alemanha preparados com Bíblias até às orelhas, Cochlaeus se queixou:

O Novo Testamento de Lutero se multiplicou e espalhou de tal maneira através dos editores que até mesmo alfaiates e sapateiros, sim, até mesmo as mulheres e as pessoas ignorantes, que aceitaram esse novo evangelho luterano e podiam ler um pouco de alemão, estudavam-no, com a maior avidez, como sendo a fonte de toda a verdade. Alguns o memorizaram, carregando-o no íntimo. Em poucos meses esse povo ficou tão letrado que não se envergonhava de debater sobre a fé e o evangelho, não apenas com os leigos católicos, mas até mesmo com os padres e monges e doutores em divindades.

Cochlaeus não podia permitir que esse pesadelo alcançasse a Inglaterra. Certo dia ele escutou por acaso alguns tipógrafos discutindo a respeito da obra de Tyndale. Embriagando-os com uma certa quantidade de vinho, ele ficou perplexo ao descobrir que o Novo Testamento Inglês já estava sendo impresso. Depois de ver apenas dez folhas completadas, Tyndale foi advertido da chegada de magistrados. Auxiliado pelo seu amanuense, William Roye, ele pôde transferir os preciosos documentos para Worms, deixando ao chão um padre frustrado.

Com a comparativa segurança da "retaguarda" oferecida por Lutero, as primeiras três mil cópias do Novo Testamento de Tyndale foram completadas em 1525 pelo editor de Worms - Schoeffer – e contrabandeadas para a Inglaterra, em barris, pilhas de roupa e sacos de farinha. Ao contrário da tradução dos manuscritos latinos de Wycliff, a obra de Tyndale foi diretamente traduzida do Grego e, mais que isso, do Textus Receptus da segunda e terceira edições de Erasmo. (Erasmo havia rejeitado as leituras Alfa e Beta da Vulgata, pavimentando, assim, a estrada para centenas de mártires em Smithfield, os quais iriam morrer por causa do Texto Majoritário).

Tendo sido alertado por Cochlaeus da "importação pendente de perniciosa mercadoria", o clero inglês ficou de sobreaviso nos portos. Muitas Bíblias foram interceptadas e queimadas em cerimônias, na Saint Paul Cross em Londres, pelo bispo Tonstal, que as chamava de "uma oferta queimada ao Deus Todo Poderoso".

Esse bispo enfatuado afirmava ter encontrado 2.000 erros na mesma. Sir Thomas More acrescentou: "tentar encontra erros no livro de Tyndale foi o mesmo que tentar água no mar". More seria degolado mais tarde, como um traidor da pátria.

Sem se intimidar, Tyndale exclamou no espírito do seu mentor alemão:Ao queimar o Livro eles fizeram exatamente o que eu esperava; provavelmente eles vão também me queimar, se for essa a vontade de Deus.

Contudo, apesar desse diabólico esforço, muitos dos volumes reprovados foram dispersos pela terra (quase 50.000, segundo alguns cálculos. As dores sofridas no sentido de proteger esses Novos Testamentos podem ser vislumbradas através do que um sóbrio crente escreveu:

Guardas perigosos cheios de whisky,
que em vão buscavam essa coluna,
gozavam de clandestinidade
e esconderijo com sofrimento ansioso.
Enquanto tudo à volta era miséria e escuridão,
Este livros nos mostrava o beijo sem fronteira,
além da tumba,
libertos dos padres venais – do castigo feudal.
Ele permitiu ao sofredor
seus passos fatigados até Deus.
E quando essa sofrida maldição na terra aconteceu
Esta principal riqueza do seu filho desceu.


Que o poder do Novo Testamento de Tyndale foi causa de alarme entre os católicos ficou evidenciado pela carta do bispo de Nikke ao seu superior, na qual se lia em parte: "está além do meu poder, ou de qualquer homem espiritual, impedir isso agora, e se assim continuar por muito tempo, ele a todos nos destruirá".

Com a cabeça erguida, Tyndale se mudou para Marburg, em 1528, onde ficou sob a proteção de Philip, o Magnânimo, Conde de Hesse. Após ter trabalhado, por quase um ano, no Pentateuco, ele embarcou para Hamburgo, porém sofreu um naufrágio na viagem, perdendo o manuscrito de Deuteronômio recém concluído.

Após uma chegada com atraso em Hamburgo, ele foi residir com Margarete von Emmerson, onde concluiu a tradução de Gênesis até Deuteronômio. Com o seu aparecimento na cidade livre de Antuérpia (para conseguir a impressão desses novos livros), Tyndale arquitetou um plano engenhoso para repor suas urgentes carências financeiras. Já ficou conhecido que o arrogante bispo Tonstal, levado ao desespero pela divulgação do Novo Testamento, havia tentado salvaguardar-se, removendo-os do comércio através de uma compra ilegal. Contudo, sem que Tonstal o soubesse, o comerciante intermediário do qual ele se aproximou, Augustine Pakinghton, era um dos simpatizantes e mantenedores de Tyndale. Foxe o descreve com esta maravilhosa narrativa poética de justiça:

Alguma semanas mais tarde, Pakinghton entrou no humilde alojamento de Tyndale, cujas finanças ele sabia terem se esgotado.

Pakinghton – "Mestre Tyndale, encontrei para vós um bom comprador dos vossos livros.

Tyndale – quem é?

Pakinghton – o senhor bispo de Londres.

Tyndale – mas se o bispo quer esses livros será apenas para queimá-los.

Pakinghton – bem... e então? O bispo os queimará de qualquer maneira e bom seria que conseguíssemos dinheiro para imprimir mais.

Tyndale – ficarei contente por esses benefícios que advirão: vou receber o dinheiro para me livrar dos débitos e o mundo inteiro vai gritar contra a queima da Palavra de Deus. O restante do dinheiro me possibilitará corrigir o dito Novo Testamento, e novamente imprimir o mesmo, confiando em que o segundo será bem melhor do que o primeiro já impresso.


Depois disso, os Novos Testamentos reimpressos logo alcançaram a Inglaterra. Então o bispo mandou procurar novamente Pakinghton indagando como era possível que os livros fossem ainda tão abundantes? "Meu senhor", respondeu o comerciante, "realmente eu acho que seria melhor que comprásseis também os tipos pelos quais eles são impressos".

Que esse conselho não foi seguido, nem é preciso declarar.

Com o lucro do seu "mais novo cliente", Tyndale entregou o seu Pentateuco, em 1530, através da Casa publicadora Hans Luft, de Marburg, com a sua tradução de Jonas sendo publicada na Antuérpia, no ano seguinte.

Por esse tempo a animosidade contra Tyndale havia aumentado consideravelmente. Além das traduções desprezadas, seus diversos ataques verbais contra Roma não estavam lhe angariando muitos amigos:

"A parábola do Maligno Mamom", 1528; "A Obediência de um Cristão" e "Como os Governantes de Cristo Devem Governar", em 1530; e sua "Prática de Prelados" , também em 1530. Numa de suas notas marginais em Jonas ele comparou a Inglaterra com Nínive.

No ano de 1535, um crédulo Tyndale foi traído por um agente secreto católico, Henry Phillips, o qual havia angariado a confiança do reformador. Depois de tomar um empréstimo de última hora no valor de 40 shillings, de sua generosa vítima, os dois homens seguiram para a pensão de Tyndale, a fim de jantar. O traidor Phillips insistiu pretensiosamente como o seu "amigo", para ir na frente. Logo que saiu, Phillips, no espírito de Judas Iscariotes, apontou na direção dele pelas costas, como sinal combinado para identificá-lo aos oficiais. O idoso santo foi depressa levado para o calabouço da fortaleza próxima de Vilvorde, dezoito milhas ao norte de Antuérpia.

Como o julgamento do seu Mestre por Pilatos, o caráter de Tyndale era inquestionável, impressionando até mesmo o promotor do Imperador que o levara a considerá-lo "homo doctus, pius, et bonus" (homem sábio, piedoso e bom).

Durante os dezoito meses do seu encarceramento, Tyndale se manteve firme. Um dos documentos mais tristes existentes em toda a história da igreja (tirado dos arquivos do Concílio de Brabant) é uma carta escrita em Latim, pela própria mão do reformador, para o governador de Vilvorde, talvez o Marquês Burgon:

Creio, cheio de legítima adoração, que não estarei despercebido do que pode ter sido determinado com respeito a mim. Daí porque peço a Vossa Senhoria, e isso pelo Senhor Jesus, que se devo permanecer aqui pelo inverno, Vossa Senhoria diga ao comissário que faça a gentileza de enviar-me, dos meus pertences que estão com ele, um boné contra o frio, visto como sinto muito frio na cabeça e sou afligido pelo contínuo catarro, que aumentou muito nesta cela. Também uma capa de inverno, pois a que tenho é muito fina; também uma peça de roupa para agasalhar minhas pernas. Meu sobretudo está gasto; minhas camisas também estão gastas. Ele tem uma camisa de lã e por favor, ma envie. Também tenho com ele perneiras de pano grosso para usar por cima. Ele tem também toucas quentes de dormir.

Peço que me seja permitido ter uma lâmpada à noite. É de fato aterrador ficar sentado sozinho no escuro. Mas, antes de tudo, peço que ele gentilmente me permita ter uma Bíblia hebraica, uma gramática hebraica e um dicionário hebraico, para que eu aproveite o tempo estudando. Em compensação Vossa Senhoria possa conseguir o que mais deseja, contanto que seja apenas para a salvação de sua alma. Mas se qualquer outra decisão foi tomada a meu respeito para ser executada antes do inverno, terei paciência, aceitando a vontade de Deus, para glória da graça do meu Senhor Jesus Cristo, cujo Espírito eu oro que possa dirigir sempre o vosso coração. Amém!

Assinado: W. Tyndale


De fato, foi a vontade de Deus que o seu servo passasse ali, não apenas aquele inverno, mas a próxima primavera e também o verão. Temos confiança de que ele conseguiu seus auxílios lingüísticos, visto como deixou atrás dele a tradução completa de Josué até II Crônicas.

Com as folhas do outono de 1536 anunciando a aproximação certa de outro inverno, o tempo da partida de Tyndale havia chegado. Condenado pelo decreto do Imperador, na assembléia de Augsburg, a data de sua execução foi estabelecida para 6 de outubro. Foxe nos transporta até essa cena sombria:

Trazido para o local da execução, ele foi atado à estaca, estrangulado por um carrasco e depois consumido pelo fogo, na cidadezinha de Vilvorde em 1536 d.C., gritando na estaca, em alta voz com fervorosa preocupação: "Senhor, abre os olhos do Rei da Inglaterra!

Quando o fiel Tyndale estava terminando a obra de sua vida, com uma última e incompreensível oração pela iluminação do rei, ele não podia imaginar que a resposta do céu já estava a caminho. McClure relata o miraculoso testemunho de que:

O que foi mais estranho em tudo isso e inexplicável para aqueles dias é que na hora exata em que Tyndale, por obtenção dos eclesiásticos ingleses e pelo tácito consentimento do rei inglês, foi queimado em Vilvorde, uma edição paginada de sua tradução era impressa em Londres, com o seu nome na página titular e por Thomas Berthlet, com a própria patente de impressão do rei. Essa foi a primeira cópia das Escrituras impressa em solo inglês.

Contudo, muito mais significativo do que esse misterioso rasgo da Providência foi a sanção oficial dada pelo próprio Henrique de duas Bíblias Inglesas dentro de um ano, a partir do martírio de Tyndale. A primeira destas foi a Bíblia Coverdale, nomeada segundo o antigo revisor em Antuérpia, Miles Coverdale (1488-1569).

A Bíblia Coverdale mantém a honra exclusiva de ser a primeira Bíblia Inglesa completa já impressa. Como Wycliff, Coverdale era fraco nas língua originais, de modo que sua obra consistiu do Novo Testamento e do Pentateuco, com os demais livros do Velho Testamento sendo conseguidos, primeiramente da tradução alemã de Lutero, com pequeno empréstimo da Vulgata Latina e da Bíblia Suíça de Zurique.

Embora Coverdale tivesse sido forçado a publicar sua primeira edição em Colônia (1535), ele muito prudentemente dedicou-a ao rei da Inglaterra e também teve o cuidado de excluir o estilo controverso das notas marginais associadas com a Bíblia de Tyndale. Não é difícil entender a boa vontade de Henrique de pessoalmente autorizar essa Bíblia (segunda edição da Coverdale de 1537), quando a capa o apresentava sentado e coroado, empunhando uma espada na página dedicatória, creditando-o como "defensor da fé". A diplomacia de Coverdale coincidia com a recente quebra do controle de Roma sobre as igrejas inglesas. Embora sem renunciar às doutrinas católicas o Ato de Supremacia aprovado pelo Parlamento em 11/11/1534, foi certamente o passo mais importante em direção à Reforma Inglesa.

A segunda Bíblia a receber sanção especial naquele ano foi outra aventura discreta. Conhecida como a Bíblia de Mateus, essa tradução foi realmente feita por John Rogers (1500-1555), o qual usou o pseudônimo de Thomas Matthews, em vista de sua bem conhecida associação com Tyndale. O melhoramento fundamental da Bíblia de Matthews foi a inclusão das obras de Tyndale "escritas no cárcere" – Josué e 2 Crônicas. Com o Pentateuco de Tyndale e o Novo Testamento basicamente intactos, a Bíblia Coverdale preencheu o vácuo, visto como Rogers assegurou alguma assistência das versões francesas de Le Fevre e Olivertan. Como a Bíblia Coverdale, a de Rogers foi também autorizada pelo rei, que tornou legal que a mesma pudesse ser comprada, lida, reimpressa e vendida. Do lado mais claro, a Bíblia de Mateus é algo referido como "a Bíblia do homem que bate da mulher", por causa da nota, fora de época, em 1 Pedro 3:1, onde se lê: "Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos; para que também, se alguns obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra".

Logo depois veio a Grande Bíblia de 1538, nomeada conforme o seu tamanho especial (16" por 11"). Ela era basicamente uma revisão da Bíblia de Mateus feita por Miles Coverdale, com pouca mudança, exceto pela remoção das notas marginais controversas de Rogers. A Grande Bíblia teve a distinção de ser a primeira Bíblia oficialmente autorizada para uso público nas igrejas da Inglaterra, pelo que foi exigido que ela fosse literalmente acorrentada a uma parte do mobiliário da igreja, onde os paroquianos tinham "acesso à mesma para ler".

Com a obesidade de Henrique forçando-o provavelmente a pensar na eternidade (tendo engordado tanto que precisava ser levantado com roldanas para montar no cavalo), o rei sancionou oficialmente a Grande Bíblia com: "Em nome de Deus, deixe-a partir para o estrangeiro, junto o nosso povo". Sem dúvida, Tyndale teria dado uma risada, por razões óbvias. Em janeiro de 1547, o próprio Henrique partiu desta terra.


Nota da tradutora:
Aqui tivemos um esboço da vida do pai da Bíblia inglesa, que se entregou à morte por amor à Palavra de Deus, levando ao seu país uma grande renovação espiritual, a qual aconteceria dentro de pouco anos.

Mary Schultze (maryschultze@uol.com.br)

Dados compilados do capítulo 9 do livro
"Final Authority", do Dr. William P. Grady, Th.D.

 

 

 

 

 

 

15 de outubro - Santa Teresa D’Ávila (1515-1582)

É a mãe e reformadora do Carmelo. É ela quem, como mestra da oração, nos ensina o modo de viver o carisma que Deus lhe deu. Nasceu em Ávila, no dia 28 de março de 1515. Ouvindo a leitura dos santos, decidiu-se ir à terra dos mouros para ser "decaptada" por amor a Cristo.

Fugiu da casa do pai com 20 anos para entrar no Carmelo da encarnação. O seu desejo de uma vida de maior oração e perfeição levou-a a iniciar um novo estilo de vida carmelita: as monjas descalças e depois, também, os frades.

A Igreja, ao proclamá-la doutora, reconhece a grande importância da sua doutrina.

Escreveu obras importantes de espiritualidade, entre as quais se destacam: Caminho de Perfeição, Castelo Interior ou Moradas e Livro da Vida.

Santa Teresa é uma figura amável, é uma profetiza da oração. Morreu no dia 4 de outubro de 1582. Celebra-se sua festa no dia 15 de outubro.

"Que teu desejo seja ver Deus; teu temor, perdê-lo; tua dor, não possuí-lo; tua alegria, aquilo que te pode levar a Ele; e assim viverás em paz."

"A oração não é mais que um íntimo relacionamento de amizade a sós com aquele de quem sabemos ser amados.""Quem pede a perfeição é inundado de tantas graças a ponto de atingir aquele elevado grau que é próprio dos que já a alcançaram."

" Por mais profunda que seja, a verdadeira humildade nunca inquieta, nem agita, nem perturba a alma, mas inunda de paz, de suavidade e de repouso."

"Deus distribui os seus bens como quer, quando quer e a quem quer, sem fazer discriminação com ninguém."

"É tão grande o amor do Senhor por nós que, em consequência àquele que nós tivermos pelo próximo, Deus fará crescer em nós, mediante milhares de expedientes, também aquele que nutrimos por Ele."

Amável  cortesia da leitora Leonor Santos, Portugal

 

15 de Outubro - Samuel Isaac Joseph  Schereschewsky, Bispo de Shangai, 1906

Samuel Isaac Joseph, nasceu na Lituânia russa, em 1831. Parte de sua educação foi na Rússia, numa escola rabínica. Passou dois anos na Universidade de Breslau, Alemanha. Na chegada aos Estados Unidos, foi para o Seminário Teológico Presbiteriano de Pittsburg, Pennsylvania, mas depois foi para o Seminário Teológico Geral Episcopal, de Nova Iorque, ordenado Diácono e, em seguida, Presbítero. Shangai, na China foi seu campo de trabalho. Eleito Bispo Missionário para a China, em 1875, recusou a posição. Eleito novamente, em 1877, aceitou. Recebeu o grau de D.D. de Faculdade de Kenyon, Ohio, em 1876, e de S.T.D. de Columbia, em 1877. Foi consagrado em Nova Iorque, em 31 Outubro de 1877. Os serviços de Schereschewsky eram particularmente valiosos no trabalho de traduzir do hebreu as escrituras do AT em mandarim e chinês. Participou da tradução do NT grego, em Chinês e mandarim, e também para os mesmos idiomas o LOC. Ele também traduziu o evangelho de Marcos em mongol, e preparou um "Dicionário deste Idioma”. Fundou uma universidade... Depois contraiu Parkinson, resignou como Bispo e gastou o resto de seus dias em suas traduções e as últimas 2000 páginas ele as digitou com um dedo, porque era o único que podia mover. Quatro anos antes da morte dele, em 1906, ele disse: "Eu me sentei nesta cadeira durante mais de vinte anos. Parecia muito duro no princípio. Mas Deus soube fazer o melhor. Ele me manteve para o trabalho do qual eu estava melhor provido".

 

 Fonte:http://www.dar.org.br/biblioteca/artigos_clerigos/artigos_clerigos_2004_001.htm

 

 

 

17 de Outubro - Santo Inácio de Antioquia  

 

Patrístico do período pré-nissênico foi o segundo bispo de Antióquia, assumindo a chefia desta comunidade depois de Evódio. Alguns estudiosos o consideram o terceiro bispo de Antioquia, pois consideram São Pedro (10 a. C. - 67)  o primeiro bispo, por este ter fundado esta comunidade. Também cognominado Theoforos que significa carregado por Deus, por ser identificado como a criança que Nosso Senhor Jesus Cristo tomou nos braços. Tornou-se célebre por sua peregrinação forçada, em cadeias, de Antioquia a Roma (~100-107). Nas paradas que fazia para descanso, escrevia à comunidades que o tinham recebido ou que lhe enviara representantes. Condenado em Roma durante o reinado (98-117) de Trajano (53-117) e, prestes a ser martirizado, a força de sua fé ficou demonstrada em uma Carta aos Romanos: "... Deixem-me ser pasto das feras, pelas quais chegarei a Deus. Sou o trigo de Deus, moído pelos dentes das feras para tornar-me o pão duro de Cristo... Quando o mundo não puder mais ver  o meu corpo, serei verdadeiramente discípulo de Cristo.". Na Liturgia Oriental sua memória é celebrada no dia 17 de outubro, enquanto que na Ocidental é celebrado no dia 1º de Fevereiro.

OBS: A cidade de Antióquia foi fundada (300 a. C.) por Seleuco I Nicátor (354-281 a. C.), general de Alexandre Magno (356-323 a. C.) e herdeiro da satrapia da Babilônia, com o nome de Antiokheia, ou seja, cidade de Antíoco, em homenagem a seu pai e general de Filipe II da Macedônia (382-336 a. C.), este pai de Alexandre, hoje chamada de Antakya, na Turquia. Tornou-se a capital do império selêucida e grande centro do Oriente helenístico. Conquistada pelos romanos (64 a. C.), conservou seu estatuto de cidade livre e foi a terceira cidade do império depois de Roma e Alexandria, chegando a abrigar 500 mil habitantes. Evangelizada pelos apóstolos Pedro, Paulo e Barnabé, tornou-se uma metrópole religiosa, sede de um patriarcado e centro de numerosas controvérsias, entre elas o arianismo, o monofisismo e nestorianismo.

http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias

 

 

18 de Outubro - São Lucas Evangelista ( ~10 - 70)

Evangelista do cristão de formação grega nascido em Antióquia, na Síria, autor do terceiro dos evangelhos sinóticos (os outros são os Mateus e Marcos) e dos Atos dos Apóstolos, e seus textos são os de maior expressão literária do Novo Testamento. Por seu estilo literário, acredita-se que pertencia a uma família culta e abastada e, de acordo com a tradição, exercia a profissão de médico e tinha talento para a pintura. Converteu-se ao cristianismo e tornou-se discípulo e amigo de São Paulo, porém segundo seu próprio relato, não chegou a conhecer pessoalmente Jesus Cristo. São Paulo o chamava de colaborador e de médico amado (Cl 4:14). Segundo o testemunho dos Atos dos Apóstolos e das Cartas de São Paulo, que constituem os únicos dados biográficos autênticos, acompanhou o apóstolo em sua segunda viagem missionária de Trôade a Filipos (49-51), e ali permaneceu nos seis anos seguintes. Depois novamente acompanhou São Paulo, desta vez  numa viagem de Filipos a Jerusalém (57-58)

. Também esteve presente na prisão do apóstolo em Cesaréia e o acompanhou até Roma. Com a execução do apóstolo e seu mestre (67), deixou Roma e, de acordo com a tradição cristã, enquanto escrevia seu Evangelho, teria sido apóstolo em Acaia, na Beócia ou também na Bitínia, onde teria morrido (70). Porém existem várias versões sobre o local e como morreu. Uma versão registra que foi martirizado em Patras e, segundo outras, em Roma, ou ainda em Tebas. Comprometido com a verdade histórica, registrou em seu evangelho o que ouvira diretamente dos apóstolos e discípulos que testemunharam a vida de Jesus. Uma tradição bizantina mais tardia (séc. VI), quase com certeza apócrifa, considera que ele também se dedicava à pintura e chegou a lhe atribuir alguns retratos de Maria, mãe de Jesus. O exame do vocabulário de seu Evangelho levou a crítica moderna a confirmar a antiga tradição de que era um médico e excelente escritor. Seu símbolo como evangelista é o touro e, na tradição litúrgica, seu dia é comemorado em 18 de outubro.

http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/SaoLucas.html;  Figura copiada do site ENCUENTRA.COM: http://www.encuentra.com/

 

 

O Evangelho de São Lucas

O Evangelho de São Lucas é o terceiro dos quatro Evangelhos canônicos do Novo Testamento, que narra a história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Possui 24 capítulos.

Embora o texto não mencione o nome de seu autor, o consenso atual segue a opinião tradicional de que este evangelho e os Atos dos Apóstolos foram escritos pelo mesmo autor. A opinião tradicional é que esse autor é o Lucas mencionado na Epístola a Filemon (Fl 1:24), um seguidor de Paulo.

Autoria e audiência

Os tradicionalistas apontam para o fato de que o mais antigo manuscrito que reteve sua página de abertura, o Papiro Bodmer XIV (datado de cerca de 200 D.C.), proclama que aquele é o euangelion kata Loukan, e a tradição subseqüente não foi quebrada. A opinião crítica, expressa por Udo Schnelle, é que "as numerosas concordâncias lingüísticas e teológicas e referências cruzadas entre o Evangelho de São Lucas e os Atos indicam que ambas obras derivam do mesmo autor" (em The History and Theology of the New Testament Writings).

O evangelista não afirma ter sido testemunha ocular da vida de Jesus, mas assegura ter investigado tudo cuidadosamente e ter escrito uma narrativa ordenada dos fatos (Lucas 1, 1-4).

Os autores dos outros três Evangelhos, Mateus, Marcos e João, provavelmente usaram fontes similares. De acordo com a hipótese das duas fontes, que é a solução comumente mais aceita para o problema dos sinóticos, as fontes de Lucas incluíram o Evangelho de São Marcos e uma coleção de escritos perdidos, conhecida pelos acadêmicos como Q, a Quelle ou "documento fonte".

O consenso geral é que o Evangelho de Lucas foi escrito por um grego para os cristãos gentios, ou seja, para os não-judeus. O Evangelho é dirigido ao protetor do autor, o "excelentíssimo" Teófilo.

 

Data da redação

A data da redação deste Evangelho é incerta. Estimativas variam entre cerca de 80 até 130 D.C.

 

Visão tradicional da data

Tradicionalmente, os cristãos acreditam que Lucas escreveu sob a direção, se não sob o ditado de São Paulo. Isso o colocaria como tendo sido escrito antes dos Atos, cuja data de composição é geralmente fixada em cerca de 63 D.C. ou 64. Conseqüentemente, a tradição é que este Evangelho foi escrito por volta de 60 ou 63, quando Lucas pode ter estado em Cesaréia Marítima (costa norte da Palestina, ao sul da atual Jafa) à espera de Paulo, que era então prisioneiro. Se, por outro lado, a conjetura alternativa estiver correta, de que o livro foi escrito em Roma, durante o tempo de prisão de Paulo lá, então a data mais provável seria entre os anos 40 e 60 D.C. Os cristãos evangélicos tendem a favorecer essa opinião, mantendo a tradição de datar os evangelhos bem nos primórdios do cristianismo.

Lucas dedicou seu Evangelho ao "excelentíssimo Teófilo." Teófilo, que em grego significa "Amigo de Deus", a expressão literária pode estar referindo-se a alguém, a uma comunidade ou a todos que se enquadrarem ao termo.

Infelizmente, em nenhum lugar do Evangelho de São Lucas ou nos Actos há referência a que o autor seja Lucas, o companheiro de Paulo; essa conexão só aparece no final do século II. Além disso, o texto em si dá pistas de que não foi escrito como um ditado de um único autor, mas que fez uso de múltiplas fontes.

 

Perspectivas críticas da data

Em contraste com a opinião tradicional, muitos acadêmicos contemporâneos consideram o Evangelho de São Marcos como um texto fonte usado pelo autor do Evangelho de Lucas. Dado que Marcos foi provavelmente escrito depois da destruição do Templo de Jerusalém, por volta de 70, Lucas não poderia ter sido escrito antes de 70. Baseado nesse dado, acadêmicos tem sugerido datas para Lucas desde o ano 80 até tão tarde quanto 150, e os Atos um pouco depois, mas também entre 80 e 150. A perda de ênfase da Parúsia e a universalização da mensagem sugerem intensamente uma data muito mais tardia do que os anos 60-70 atribuídos pela opinião tradicional.

O debate continua entre os não-tradicionalistas sobre se Lucas escreveu antes ou depois do final do primeiro século. Aqueles que preferem uma data mais tardia argumentam que ele foi escrito em resposta a movimentos heterodóxicos do início do segundo século. Já aqueles que tendem por uma data mais antiga, assinalam as duas seguintes considerações: Lucas desconhece o sistema episcopal, que se desenvolveu no segundo século e uma data mais antiga preserva a tradicional conexão do Evangelho com o Lucas que foi companheiro de Paulo.

Manuscritos

Os manuscritos mais antigos do Evangelho de Lucas são fragmentos de papiro do século III, um contendo passagens dos quatro evangelhos (P45) e três outros preservando apenas breves passagens (P4, P69, P75). Essas cópias primitivas, assim como as primeiras cópias dos Actos, são de data posterior àquela em que o Evangelho foi separado dos Actos.

O Codex Bezae, na Biblioteca da Universidade, Cambridge, contém um manuscrito do século V ou VI que é o manuscrito completo mais antigo de Lucas, nas versões grega e latina, em páginas lado a lado. A versão grega parece ter origem em um ramo da tradição principal dos manuscritos e desenvolve-se a partir de textos conhecidos, em muitas passagens. Embora o texto apresente muitas correções intencionais, amiúde para alinhá-lo com as textos correntes, o Codex Bezae demonstra a latitude em manuscritos de escrituras que ainda existiram muito tarde na tradição. Acadêmicos bíblicos tem minimizado a importância do Codex, citando-o geralmente apenas quando ele reforça os textos comuns.

 

Relacionamentos com os outros evangelhos

A maioria dos estudiosos do Novo Testamento acredita que o autor do Evangelho de Lucas confiou no texto de Marcos e na "Q" como suas fontes primárias.

De acordo com Farrar, "de um total de 1151 versículos, Lucas tem 389 em comum com Mateus e Marcos, 176 em comum apenas com Mateus, 41 em como com Marcos somente, deixando 544 privativos para si próprio. Em muitas instâncias, todos os três usam linguagem idêntica."

Há 17 parábolas próprias desse Evangelho. Lucas também atribui a Jesus sete milagres que não estão presentes nem em Mateus nem em Marcos. Os evangelhos sinóticos estão relacionados um com o outro segundo o seguinte esquema: se o conteúdo de cada evangelho é indexado em 100, então quando se compara esse resultado se obtém: Marco tem 7 peculiaridades e 93 coincidências. Mateus tem 42 peculiaridades e 58 coincidências. Lucas tem 59 peculiaridades e 41 coincidências. Isso é, 13/14 (treze quatorze avos) de Marcos, 4/7 de Mateus e 2/5 de Lucas descrevem os mesmos eventos em linguagem similar. O estilo de Lucas é mais polido do que o de Mateus e Marcos, com menos hebraismos. Lucas utiliza algumas palavras latinas (q.v. Lucas 7,41; 8,30; 11,33; 12,6 e 19,20), mas nada de termos em aramaico ou hebraico, exceto sikera, uma bebida estimulante da natureza do vinho, mas não processada de uvas (do hebraico shakar, "ele está intoxicado", Levítico 10,9), provavelmente vinho de palmeira. Esse Evangelho contém 28 referências distintas ao Antigo Testamento.

Muitas palavras e frases são comuns ao Evangelho de Lucas e às cartas de Paulo, comparando:

  • Lucas 4,22 com Colossenses 4,6.
  • Lucas 4,32 com I Coríntios 2,4.
  • Lucas 6,36 com II Coríntios 1,3.
  • Lucas 6,39 com Romanos 2,19.
  • Lucas 9,56 com II Coríntios 10,8.
  • Lucas 10,8 com I Coríntios 10,27.
  • Lucas 11,41 com Tito 1,15.
  • Lucas 18,1 com II Tessalonicenses 1,11.
  • Lucas 21,36 com Efésios 6,18.
  • Lucas 22,19-20 com I Coríntios 11,23-29.
  • Lucas 24,34 com I Coríntios 15,5.

 

Testemunhos e avaliações

O Evangelho de Lucas tem sido chamado "o Evangelho das nações, cheio de compaixão e esperança, asseguradas ao mundo pelo amor de um Salvador sofredor;" "o Evangelho da vida santa;" "o Evangelho para os gregos; o Evangelho do futuro; o Evangelho da cristandade progressista, da universalidade e graciosidade do evangelho; o Evangelho histórico; o Evangelho de Jesus como o bom médico e o Salvador da humanidade;" o "Evangelho da Fraternidade de Deus e da irmandade do Homem;" "o Evangelho da condição feminina;" "o Evangelho dos desfavorecidos, dos samaritanos, dos publicanos, das prostituídas e dos pródigos;" "o Evangelho da tolerância."

A principal característica deste Evangelho, como Farrar (Cambridge Bible, Lucas, Introd.) observa, está expressa no lema "Quem andou por toda parte, fazendo o bem e curando todos os que estavam dominados pelo diabo" (Atos, 10, 38; comparar com Lucas 4,18). Lucas escreveu para o "mundo helênico." Este Evangelho é em verdade "rico e precioso."

 

19 DE OUTUBRO - HENRY MARTIN

 

 

Henry Martin nasceu em 1781 e estudou em Cambridge, onde tornou-se especialista em matemática. Tinha também facilidade em aprender línguas.

Incentivado por Charles Simeon (ver 12 de novembro), foi para a Ìndia como Capelão, onde chegou em 1806. Ainda em sua viagem para a Índia, no ano de 1805, o navio em que viajava aportou durante 15 dias na Bahia onde manteve contato com os padres católicos romanos, falando em francês e latim, ocasião em que escreveu no seu diário: “Quem  será o ditoso missionário que irá trazer o nome de Cristo a esta região ocidental? Quando será este país libertado da idolatria e do Cristianismo espúrio? Cruzes há em abundância, mas quando será aqui anunciada a doutrina da Cruz?”

 

Os seis últimos anos de sua vida foram dedicados a traduzir o Novo Testamento para o Hindi e Persa, revisado uma tradução Árabe do Novo Testamento, e traduzidos os Salmos para o Persa e o Livro de Oração Comum para o Hindi. Em 1811 saiu da India para a Pérsia, esperando fazer mais algumas traduções e melhorar as existentes. Não concluiu os seus projetos, pois adoeceu e morreu em Tokat (Província da Turquia) em 16 de outubro de  1812 (O Calendário Americano comemora em 19 outubro). Foi enterrado pela Igreja Armeniana, com as honras reservadas ordinariamente para os seus  próprios bispos.                                            

Seu diário foi chamado “um dos mais preciosos tesouros  da devoção Anglicana”.

Pesquisa revjbs out 2006

 

23 de Outubro - SÃO TIAGO DE JERUSALÉM, IRMÃO DO SENHOR, MÁRTIR, 62

 

 

Tiago, irmão do Senhor, Mt 13. 55; Mc  6. 3; Gl 1 1. 19, figura saliente na igreja de Jerusalém, nos tempos apostólicos, At 12. 17; 15. 13; 21. 18; 01 1. 19; 2. 9, 12. Este Tiago é mencionado nominalmente duas vezes nos evangelhos, Mt 13. 55; Mc 6. 3, mas os traços gerais de sua vida, só os poderemos encontrar nas relações com as noticias sobre “os irmãos do Senhor” que constituem classe distinta, tanto em vida do Senhor, quando ainda não criam nele, Jo 7. 5, como depois da sua ressurreição, quando se encontram no meio dos discípulos em Jerusalém, At 1. 14. As exatas relações destes “irmãos” com o Senhor Jesus, têm dado lugar a muita discussão. Alguns identificam--nos com os filhos de Alfeu, seus primos irmãos. Pensam outros que estes irmãos do Senhor vêm a ser filhos de José, por um primeiro casamento. Como eles aparecem sempre em companhia de Maria, morando com ela e acompanhando-a em viagens e mantendo relações tão intimas, não é para se duvidar que eles sejam realmente seus filhos e verdadeiros irmãos de Jesus, Mt 12. 46, 47; Lc 8. 19; Jo. 2. 12. Como o nome de Tiago é o primeiro que aparece na enumeração dos irmãos de Jesus, é de supor que fosse ele o mais velho, Mt 13. 55; Mc 6. 3. É provável que ele tenha participado da descrença de seus irmãos, Jo 7. 5, e sem dúvida também dos cuidados pela segurança de sua vida, Mc 3. 31. Quando e de que modo se operou a sua mudança em servo de Cristo, não sabemos, At 1. 14; Tg 1. 1, Quem sabe se ele se converteu em virtude de uma revelação especial como foi a do apóstolo S. Paulo!, 1 Co 15. 7. Desde o inicio da igreja de Jerusalém que o nome de Tiago aparece à sua frente, At 12. 17; 15. 13; 21. 18; GI 1. 19; 2. 9, 12.

Quando, pelo ano 40, 5, Paulo visitou Jerusalém, depois de convertido, declara haver estado com Tiago, sinal evidente de que ele estava à testa da igreja, Gl  1. 19. Há uma referência em At 12. 17 e outra em 21. 18, pelas quais se vê que este discípulo continuava em destaque nos anos 44 e 58 respectivamente. A leitura do v. 6 do cap. 15 dá-nos a entender em que consistia a sua preeminência. Não sendo apóstolo, é licito pensar que ele era o presidente da corporação presbiterial da igreja de Jerusalém e pastor dela, O seu nome aparece nesta qualidade, como se depreende das seguintes passagens: Gl 2. 12; At 12. 17; 15. 13; 21. 18. Os visitantes que iam a Jerusalém dirigiam-se em primeiro lugar a ele, 12. 17; 21. 18; Gl 1. 19; 2. 9. A sua posição na igreja serviu muito para facilitar a passagem dos judeus para o Cristianismo. Os fundamentos de sua fé aliavam-se perfeitamente com as idéias de S. Paulo como se evidencia pela leitura de Gl  2. 9; At 15. 13; 21. 20. Em ambas as passagens citadas, ele fala também em favor da consciência cristã dos judeus convertidos. Como S. Paulo, fazia-se tudo para todos, era judeu com os judeus para ganhar os judeus, O emprego de seu nome pelos judaizantes, Gl 2. 12; Lit. Clementina, e a admiração que havia por ele entre os judeus, a ponto de o apelidarem de “justo”, tem explicação neste traço de seu caráter, Euzébio, H. E. 2. 23. A última vez que o Novo Testamento se refere a ele, é em ,At 21. 18, onde se diz que o apóstolo Paulo havia ido à sua casa em Jerusalém, A. D. 58. A história profana, contudo, informa que ele sofreu o martírio por ocasião do motim dos judeus no interregno entre a morte de Festo e a nomeação de seu sucessor, A. D. 62, Antig. 20. 9, 1; Euzébio, H. E. 2. 23.

Fonte: Dicionário da Bíblia, John D. Davis.

 

 

28 de Outubro - São Simão

 

Simão foi um dos discípulos de Jesus Cristo, conhecido como "Simão, o Cananeu" de acordo com o Livro de Mateus e como "Simão, o Zelote" no Livro de Lucas 6:15 e Atos 1:13.

A palavra grega Cananeu e a palavra Zelote derivada do aramaico significam a mesma coisa: "zeloso". Supõe-se por esse apelido que Simão pertencia à seita judaica conhecida como zelotes.

O momento no qual se ocorreu o chamamento de Simão para se unir aos apóstolos não é muito claro na Bíblia. Sabe-se apenas que foi convidado ao mesmo tempo que André, Pedro, Tiago, João, Judas Iscariotes e Tadeu (Mateus 4:18-22).

Não se sabe ao certo qual o ministério de Simão posteriormente

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.

 

 

28 de Outubro - São Judas

São Judas é um santo Cristão e um dos doze apóstolos de Jesus. Seus outros nomes são Judas Tadeus e Judas Lebeus. Ele é também conhecido como São Tadeu (Greco Θαδδαῖος), soletrado como "Thaddæus" ou "Thaddaeus" em diferentes versãoes da Bíblia, e como São Matfiy (Фаддей, он же Иуда Иаковлев или Леввей, em russo) na tradição ortodoxa russa (junto com São Judas). Ele não deve ser confundido com Judas Escariote  que traiu Jesus e mais tarde (Segundo Mateus) cometeu suicídio.

São Judas foi um irmão de São James (Tiago) o Justo, e um parente de Jesus (veja também Judas, irmão de Jesus). Marcos 6:3 declara sobre Jesus: “Não é esse o carpinteiro? Não é esse o filho de Maria e o irmão de James (Tiago), José, Judas e Simão? Não são essas suas irmãs conosco?”

Nos Atos de Tomás, um dos Novo Testamento, escrito na Síria no início do século 3, ele foi identificado como Judas Tomás, que é o nome completo do apóstolo Tomás, segundo a tradição síria. Judas, sendo São Judas, é suposto na visao da Igreja Apostólica Armenia, ter levado o Cristianismo à Armenia. Judas é o santo patrono das causas desesperados de das causas perdidas na Igreja Católica Romana.

O símbolo de São Judas é um machadinho. Ele é também geralmente apresentado em icons com uma flama ao redor de sua cabeça. Essa flama representa a presença do Pentecoste, quando ele recebeu o Espírito Santo, junto com os outros apóstolos.

As vezes ele é representado segurando um machado, por sua morte ter ocorrido por essa arma. Em alguns casos ele é mostrado como um rolo ou livro (seu epístolo) ou segurando uma régua de carpinteiro.

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.

 

 

 

31 DE OUTUBRO - Dia da Reforma Protestante

 

31 de Outubro de 1517_ Dia da Reforma Protestante

(Dia em que Martinho Lutero afixou as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittemberg).

Gottfried Brakemeier (Pastor Luterano)

Estimadas Senhoras e Senhores, irmãos e irmãs!

 Salvo raras exceções, o "Dia da Reforma" não goza do privilégio de um feriado em nosso País. Afinal, ele serve para quê? Para homenagear os protestantes? Para trazer à memória as dolorosas divisões da Igreja, ocorridas no século XVI? Existem sensibilidades, até mesmo embaraços com relação à comemoração do dia em que no remoto ano de 1517 Matim Lutero afixou suas afamadas 95 teses à porta da Igreja do Castelo em Wittenberg. É verdade que foi alto o preço a pagar pela Reforma, infelizmente. E no entanto, se a atenção se prender ao prejuízo tão-somente, ainda não se percebeu a real importância do movimento desencadeado por Lutero e os demais reformadores. Depois daquele 31 de outubro o mundo já não mais seria o mesmo como antes.

Apesar dos questionamentos, pois, a comunidade evangélica tem boas razões para não deixar passar em brancas nuvens esta data. Apregoa ser a Reforma evento memorável para toda cristandade e convida as Igrejas irmãs para a comemoração conjunta. Não nega a ambiguidade da mesma. O retrospecto histórico faz ver, a um só tempo, a fidelidade de Deus e o pecado humano, o ganho e a perda, avanços e fracassos. Justamente assim, porém, o dia possui relevância ecumênica. Lembra um marco decisivo na trajetória do povo de Deus, bem como uma vocação comum, altamente relevante no século XXI. É o que tentarei mostrar em poucas e breves reflexões.

 1. Temo que, em boa medida, os aspectos incômodos, característicos do dia 31 de outubro, sejam decorrentes do próprio termo "Reforma". Desde que "Reforma" ultrapasse o simples conserto formal e persiga a meta de real renovação, costuma sofrer resistências. Foi o que aconteceu no século XVI. Lutero queria mais do que colocar remendo em roupa velha. Sintonizou, desse modo, com um profundo anseio popular da época, insistindo em substancial reforma de Igreja e sociedade "da cabeça até aos pés". Reforma, isto era sinônimo de "conversão", de mudança e de correção de percurso. Tratava-se de projeto necessário, inadiável, urgente.

 Ainda hoje ou novamente o é. Necessitamos de reforma nas Igrejas. Aliás, Igreja luterana sabe ser reforma jamais algo definitivo. É como a higiene do corpo. Deve ser permanente. Ademais, reforma se exige como resposta a novos desafios e como adequação a novas circunstâncias. Quem não muda em meio às transformações da história, torna-se obsoleto, disfuncional. Não posso aprofundar o assunto. De qualquer maneira, o dia da reforma lembra à cristandade um compromisso inalienável, hoje não menos atual como antigamente. Igreja que resiste à reforma, estagna e coloca em risco sua qualidade evangélica. Eis, porque o dia da Reforma é dia ecumênico.

Arrisco dar mais outro passo. Afirmo "reforma" como premente necessidade global. Não foram apenas os acontecimentos no dia 11 de setembro último que disso lembraram. Há outros fenômenos angustiantes, exigindo uma radical mudança de rumo. Sem incisivas reformas na economia, na política, na mentalidade da era dita pós-moderna está ameaçado o futuro da humanidade. Estamos em situação pior do que no século XVI. Pois as ameaças são incomparavelmente mais graves. "Dia da Reforma", isto significa "Dia da Penitência". Sem a disposição para rever atitudes, procedimentos e leis não haverá saída dos impasses. O dia 31 de outubro exige deste nosso mundo nada menos do que a radical reavaliação dos valores e das estruturas que regem o convívio das pessoas e que conduziram a uma situação de quase pânico geral. Clamamos por paz, clamamos por mudança. Como alcançar o objetivo?

 

2. Também neste tocante a comemoração da Reforma do século XVI oferece ajuda. Lutero, o que queria? Ora, quis no fundo apenas isto: que os direitos de Deus voltassem a ser respeitados. Ele se opôs à usurpação de autoridade divina em Igreja e sociedade de seu tempo.
Paradoxalmente, o ser humano se desumaniza quando cultua seus próprios interesses e despreza os interesses divinos. Colidem então as ambições subjetivas, corporativistas, nacionalistas, mergulhando a sociedade em perigosos conflitos. Diz a Bíblia ser o temor a Deus o início da sabedoria. Quando o ser humano abole a fé em Deus ou a substitui pela fé em ídolos, transforma-se naquela besta de que fala o capítulo 13 do livro de Apocalipse, simbolizando tirania e perversão.

 É tradição profética insistir no direito divino como norma do humano. Sob esta perspectiva, a Reforma do século XVI tem tido nitidamente natureza profética. Temer a Deus, amá-lo e confiar nele acima de todas as coisas, isto é simplesmente vital para o ser humano. Sem o respeito ao primeiro mandamento, a sociedade se inviabiliza. Perde os parâmetros e afunda em idolatria e confusão. Nem tudo é relativo, permitido, conveniente. O mundo de hoje se ressente da falta de critérios básicos comuns, capazes de garantir a sociedade sustentável, de assegurar a paz e de superar a tão falada crise de ética e mesmo de sentido. O "Dia da Reforma" coloca em pauta não só a necessidade da penitência. Com a mesma insistência reintroduz o tema "Deus" na luta dos interesses humanos, sejam eles individuais, grupais, institucionais e mesmo culturais. A fé em Deus não é nenhum supérfluo na vida humana. Ninguém o enfatizou como Lutero.

 

3. Mas dizer somente isto não basta. Pois justamente em nome de Deus tem sido e continuam sendo cometidos bárbaros crimes. Guerra é sempre um horror. Mas chega a seu ápice, quando assume as características de guerra santa. A Reforma bem o sabia. Combateu, por isto, o abuso do nome de Deus com o mesmo vigor com que insistia nos direitos de Deus. Viu a necessidade da prestação de contas da imagem do Deus a que o seu humano devota seu culto. Pois poderá ser um ídolo demoníaco, devorando qualidade de vida e acobertando a violência e a injustiça. A Reforma do século XVI pretendia ser evangélica, orientada no Deus que não escraviza, antes liberta dos múltiplos cativeiros humanos. Para Lutero e seus amigos Reforma não significava uma nova lei. Pelo contrário, consistia na redescoberta do amor de Deus que acolhe o perdido, o desesperado, o culpado, que justifica por graça e por fé.

 O Deus do evangelho é o Deus que não se vingou nos seus inimigos, quando tramaram atentado contra seu filho. À crucificação de Jesus Cristo, Deus responde não com demonstração de força, de raiva e de retaliação, e, sim com o seu perdão. Por isto mesmo a lei máxima deste Deus é a do amor, loucura aos olhos do mundo, e não obstante a máxima sabedoria. Justiça humana evidentemente não pode abrir mão da penalização do crime. Impunidade é chaga no corpo social. Não se confunda justiça com vingança. Esta é o que se proíbe. Vai tão somente acelerar a espiral da violência e, à dessemelhança da justiça, é incapaz do perdão. Permanece verdade que perdoar é mais sábio do que vingar-se, distribuir mais sábio do que acumular, integrar mais sábio do que excluir. O Deus da Bíblia é o Deus da sabedoria. Nem sempre a cristandade tem sido fiel a este Deus. Assim como o apóstolo Pedro, assim também ela por demais vezes traiu o seu Mestre. Precisa de penitência também ela. Entretanto, vive da certeza de que infidelidade humana não seja capaz de invalidar o amor que Deus mesmo é e que demonstra à sua criatura.

São os direitos deste Deus com que a Reforma se sabe comprometida. Igreja evangélica e cristã está consciente da variedade de imagens do divino neste mundo. Não quer impor a sua "teovisão" às religiões não cristãs. Qualquer pressão ou violência nessa direção seria incompatível com o Deus de Abraão, Isaque e Jacó que é também o Pai de Jesus Cristo. E no entanto, Igreja cristã jamais poderá conformar-se com a idéia de um Deus inclemente, impiedoso, brutal. Tal Deus que não ama e cuja "lei" maior por isto mesmo não consiste no amor, dificilmente vai proporcionar salvação à espécie humana e a este mundo. Não é o Deus de Jesus Cristo. Costuma-se considerar a fé um assunto particular. Nada mais errado do que isto. Fé é assunto público da mais alta relevância. Precisamos conversar a respeito, portanto. Pois o Deus em que o ser humano crê, é literalmente assunto de vida e morte, de paz ou de guerra, de bem estar social ou de ruína.

 

4. A Reforma do século XVI desenvolveu dinâmica pelo decidido recurso à Bíblia, respectivamente ao evangelho. Resultam daí um compromisso e um convite.

 

  1. O compromisso é o da gratidão a Deus. Nós sabemos que o desenrolar da Reforma se deu em meio a fortes conflitos, alguns mesmo sangrentos. Nem sempre as causas eram de ordem religiosa. Fatores políticos, econômicos, religiosos, "humanos" se misturaram. Ainda assim. A Reforma brindou a Igreja de Jesus Cristo e por extensão também a humanidade com precisosos dons. É extremamente rica a herança espiritual que nos legou. Incentivou o estudo da Bíblia e o levantamento de seus tesouros. Cravou um espinho na carne da cristandade, lembrando-lhe a tarefa da reforma como inerente ao próprio evangelho. Acarretou liberdades individuais e grupais. Não preciso ser exaustivo. Seríamos cegos, se não enxergássemos a mão de Deus, escrevendo reto em linhas tortas também neste caso. Na Reforma o Espírito Santo soprou mais forte do que a obstinação humana e sua resistência à auto-correção, motivo para um profundo "Graças a Deus". A Igreja toda foi beneficiada.
  2. O convite é duplo. Dirije-se em primeiro lugar às Igrejas irmãs. A Reforma não criou Igreja nova. Igreja cristã tem sua origem em Jerusalém, não em Wittenberg, nem em Roma, nem em Londres ou qualquer outra parte do mundo. Somos uma Igreja só, vivendo de uma só fonte que é o evangelho. Por isto façamos nova reforma juntos. E veremos que, se tivermos a coragem para tanto, vamos chegar bem próximos uns dos outros. Não vamos nivelar as nossas diferenças. Isto não é possível nem exigido. Mas vamos viver como pessoas e instituições reconciliadas por Cristo, oferecendo à sociedade um modelo de paz evangélica. Exatamente por isto, o convite vai para além das Igrejas. É extensivo à sociedade brasileira, às culturas, aos povos, aos segmentos sociais, às insituições políticas. Claro, "reforma" nestes horizontes vai se processar em termos diferentes, peculiares. Mas insistimos em que deixe de ser palavra temida e passe a ser projeto prioritário com critérios orientados no bem da criação. Isto em todos os níveis. Reforma é o pressuposto da paz que almejamos.

 

"Dia da Reforma" – um dia supérfluo? Igreja evangélica sustenta que não, e pede explicação de quem afirma o contrário. É um dia comemorativo, sim. Há uma história a lembrar que, em toda a sua ambiguidade, possui aspectos instrutivos e não deixa de ser motivo de gratidão. Simultaneamente, porém, "Dia da Reforma" é um dia programático, lembrando uma urgência atual. Conclama à ação. Para tanto nos dirigimos a Deus. Queira conceder-nos o seu Espírito renovador, assim como já o fez no passado, que o faça hoje.

Mensagem proferida em 31 de dezembro de 2001 por ocasião da celebração conjunta IELB e IECLB, Comunidade Evangélica de Porto Alegre e Distrito Portoalegrense.

  As 95 Teses de Lutero

1ª Tese - Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: "Arrependei-vos", certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.

2ª Tese - E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes.

3ª Tese - Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de modificações da carne.

4ª Tese - Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até a entrada desta para a vida eterna.

5ª Tese - O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os cânones, que são estatutos papais.

6ª Tese - O papa não pode perdoar divida senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus; ou então faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada ou perdoada.

7ª Tese - Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao sacerdote, seu vigário.

8ª Tese - Canones poenitendiales, que não as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas as Impostas aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.

9ª Tese - Eis porque o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluído este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema

10ª Tese - Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõem aos moribundos poenitentias canonicas ou penitências para o purgatório a fim de ali serem cumpridas.

11ª Tese - Este joio, que é o de se transformar a penitência e satisfação, Previstas pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado quando os bispos se achavam dormindo.

12ª Tese - Outrora canonicae poenae, ou sejam penitência e satisfação por pecadores cometidos eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.

13ª Tese - Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição.

14ª Tese - Piedade ou amor Imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menor o amor, tanto maior o temor.

15ª Tese - Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras cousas, bastam para causar o tormento e o horror do purgatório, pois que se avizinham da angústia do desespero.

16ª Tese - Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.

17ª Tese - Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, nelas também deve crescer e aumentar o amor.

18ª Tese - Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas ações e nem pela Escritura, que as almas no purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.

19ª Tese - Ainda parece não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem por ela, não obstante nós termos absoluta certeza disto.

20ª Tese - Por isso o papa não quer dizer e nem compreende com as palavras "perdão plenário de todas as penas" que todo o tormento é perdoado, mas as penas por ele impostas.

21ª Tese - Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante a indulgência do papa.

22ª Tese - Pensa com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas no purgatório das que segundo os cânones da Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida.

23ª Tese - Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muito poucos.

24ª Tese - Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.

25ª Tese - Exatamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d’almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.

26ª Tese - O papa faz muito bem em não conceder às almas o perdão em virtude do poder das chaves (ao qual não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.

27ª Tese - Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.

28ª Tese - Certo é que no momento em que a moeda soa na caixa vêm o lucro e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da Igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.

29ª Tese - E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com Santo Severino e Pascoal.

30ª Tese - Ninguém tem certeza da suficiência do seu arrependimento e pesar verdadeiros; muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.

31ª Tese - Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e, pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.

32ª Tese - Irão para o diabo juntamente com os seus mestres aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.

33ª Tese - Há que acautelasse muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dadiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.

34ª Tese - Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória estipulada por homens.

35ª Tese - Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.

36ª Tese - Todo e qualquer cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.

37ª Tese - Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.

38ª Tese - Entretanto se não deve desprezar o perdão e a distribuição por parte do papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão constitui uma declaração do perdão divino.

39ª Tese - É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e ao contrário o verdadeiro arrependimento e pesar.

40ª Tese - O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo: mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para isso.

41ª Tese - É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal para que o homem singelo não julgue erroneamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.

42ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgência de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.

43ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta aos necessitados do que os que compram indulgências.

44ª Tese - Ê que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.

45ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgências do papa. mas provoca a ira de Deus.

46ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura , fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.

47ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos, ser a compra de indulgências livre e não ordenada

48ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro.

49ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos, serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus.

50ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgências, vendendo, se necessário fosse, a própria catedral de São Pedro.

52º Tese - Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.

53ª Tese - São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas demais igrejas.

54ª Tese - Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia.

55ª Tese - A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a causa menor, com um sino, uma pompa e uma cerimônia, enquanto o Evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem sinos, centenas de pompas e solenidades.

56ª Tese - Os tesouros da Igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecido na Igreja de Cristo.

57ª Tese - Que não são bens temporais, é evidente, porquanto muitos pregadores a estes não distribuem com facilidade, antes os ajuntam.

58ª Tese - Tão pouco são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto estes sempre são eficientes e, independentemente do papa, operam salvação do homem interior e a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior.

59ª Tese - São Lourenço aos pobres chamava tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.

60ª Tese - Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, a ela dado pelo merecimento de Cristo.

61ª Tese - Evidente é que para o perdão de penas e para a absolvição em determinados casos o poder do papa por si só basta.

62ª Tese - O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63ª Tese - Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.

64ª Tese - Enquanto isso o tesouro das indulgências é sabiamente o mais apreciado, porquanto faz com que os últimos sejam os primeiros.

65ª Tese - Por essa razão os tesouros evangélicos outrora foram as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.

66ª Tese - Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.

67ª Tese - As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.

68ª Tese - Nem por isso semelhante indigência não deixa de ser a mais Intima graça comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.

69ª Tese - Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda a reverência.

70ª Tese - Entretanto têm muito maior dever de conservar abertos olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não preguem os seus próprios sonhos.

71ª Tese - Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.

72ª Tese - Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.

73ª Tese - Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.

74ª Tese - Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob o pretexto de indulgência, prejudiquem a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agir.

75ª Tese - Considerar as indulgências do papa tão poderosas, a ponto de poderem absolver alguém dos pecados, mesmo que (cousa impossível) tivesse desonrado a mãe de Deus, significa ser demente.

76ª Tese - Bem ao contrario, afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo o menor pecado venial pode anular o que diz respeito à culpa que constitui.

77ª Tese - Dizer que mesmo São Pedro, se agora fosse papa, não poderia dispensar maior indulgência, significa blasfemar S. Pedro e o papa.

78ª Tese - Em contrario dizemos que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o Evangelho. as virtudes o dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1Coríntios 12.

79ª Tese - Afirmar ter a cruz de indulgências adornada com as armas do papa e colocada na igreja tanto valor como a própria cruz de Cristo, é blasfêmia.

80ª Tese - Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas deste procedimento.

81ª Tese - Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a Indulgência, faz com que mesmo a homens doutos é difícil proteger a devida reverência ao papa contra a maledicência e as fortes objeções dos leigos.

82ª Tese - Eis um exemplo: Por que o papa não tira duma só vez todas as almas do purgatório, movido por santíssima' caridade e em face da mais premente necessidade das almas, que seria justíssirno motivo para tanto, quando em troca de vil dinheiro para a construção da catedral de S. Pedro, livra um sem número de almas, logo por motivo bastante Insignificante?

83ª Tese - Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para o mesmo fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou pretendas oferecidos em favor dos mortos, visto' ser Injusto continuar a rezar pelos já resgatados?

84ª Tese - Ainda: Que nova piedade de Deus e dó papa é esta, que permite a um ímpio e inimigo resgatar uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não resgatar esta mesma alma piedosa e querida de sua grande necessidade por livre amor e sem paga?

85ª Tese - Ainda: Por que os cânones de penitência, que, de fato, faz muito caducaram e morreram pelo desuso, tornam a ser resgatados mediante dinheiro em forma de indulgência como se continuassem bem vivos e em vigor?

86ª Tese - Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer Credo, não prefere edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de fiéis pobres?

87ª Tese - Ainda: Quê ou que parte concede o papa do dinheiro proveniente de indulgências aos que pela penitência completa assiste o direito à indulgência plenária?

88ª Tese - Afinal: Que maior bem poderia receber a Igreja, se o papa, como Já o faz, cem vezes ao dia, concedesse a cada fiel semelhante dispensa e participação da indulgência a título gratuito.

89ª Tese - Visto o papa visar mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, aos quais atribuía as mesmas virtudes?

90ª Tese - Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da força e não mediante argumentos da lógica, significa entregar a Igreja e o papa a zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91ª Tese - Se a Indulgência fosse apregoada segundo o espírito e sentido do papa, aqueles receios seriam facilmente desfeitos, nem mesmo teriam surgido.

92ª Tese - Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz.

93ª Tese - Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz.

94ª Tese - Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno.

95ª Tese - E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas